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Exposição de Lucas Dupin questiona memória, poder e permanência do saber ocidental

Redação Culturize-se

Em tempos em que o acúmulo vertiginoso de informações convive com a obsolescência acelerada do saber institucionalizado, a exposição Na infinita soma dos possíveis, de Lucas Dupin, desponta como um gesto crítico e poético sobre o papel das bibliotecas, dos arquivos e da própria ideia de conhecimento. Com texto curatorial de Lorraine Mendes, a mostra abre em 24 de maio, na Galeria Lume, em São Paulo, e oferece, mais do que obras, um convite à suspensão das certezas.

O que Dupin nos propõe não é simplesmente um reencontro com os livros, mas a revisitação do que eles representam enquanto estruturas de poder, validação e exclusão. Ao manipular enciclopédias, dicionários, almanaques e gramáticas — suportes outrora reverenciados como depositários do saber legítimo — o artista não apenas desfigura a autoridade de seus conteúdos, mas os reconfigura em dispositivos visuais de desobediência epistêmica. Cada corte, dobra e justaposição é um gesto editorial que se inscreve contra a fixidez do arquivo tradicional.

No luminoso ateliê instalado num terraço residencial de Belo Horizonte, Dupin opera como um monge e um alquimista. Entre plantas, ferramentas e volumes empilhados, articula obras que oscilam entre o rigor formal e a delicadeza sensorial. O bronze e o douramento — materiais carregados de peso simbólico e permanência — se tornam aqui tensionados pela leveza do papel e pela fluidez da aquarela. São vestígios do tempo que, em vez de consolidar o passado, o embaralham. A permanência, como bem soube Derrida — cuja filosofia inspira o título da mostra —, é sempre ilusória: o sentido escapa, a cada leitura, a cada gesto.

Uma da obras da serie de “Bibliomorfas” | Foto: Daniel Pinho

Há, nas obras, uma dimensão coreográfica que aproxima o gesto artístico do gesto político. Ao construir bibliotecas móveis e instáveis, Dupin desafia as noções de centralidade e autoridade que há séculos regem o mundo da escrita. A espada de São Jorge, presença vegetal recorrente nos trabalhos, aparece como contraponto simbólico: protetora, mágica, periférica, atravessa as composições como signo de outros saberes — os populares, os orais, os marginais.

A exposição se constitui assim como um campo de fricções: entre tradição acadêmica e cultura cotidiana, entre a racionalidade do texto e o mistério das formas. Há algo de ritual nessas constelações poéticas, como se cada obra fosse uma oferenda à dúvida, ao não dito, ao que ainda escapa aos sistemas classificatórios. Dupin transforma o espaço expositivo numa biblioteca onde as páginas foram soltas ao vento — e, no voo, ganham novas camadas de leitura e de sentido.

Na infinita soma dos possíveis coloca a arte em diálogo com a história do conhecimento e reivindica o gesto artístico como potência de reorganização simbólica. Em tempos de verdades rápidas e arquivos definitivos, Dupin nos lembra que o saber, como a arte, vive melhor quando está por se refazer.

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