Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

A batalha pela atenção também redefine o jornalismo

Redação Culturize-se

O jornalismo vive um momento de transição que vai além da mudança de formatos ou plataformas. A disputa agora acontece no terreno da atenção. De um lado, empresas como o TikTok demonstram interesse crescente em aproximar veículos, jornalistas e criadores de conteúdo, reconhecendo que a informação se tornou um ativo estratégico para manter os usuários engajados. De outro, cresce a preocupação com o enfraquecimento da comunicação pública e com o espaço cada vez maior ocupado por narrativas impulsionadas por algoritmos, interesses políticos e desinformação.

Os sinais de mudança são evidentes. Durante o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o TikTok apresentou sua estratégia para ampliar a circulação de conteúdo jornalístico na plataforma. A empresa afirma que mais da metade de seus usuários brasileiros consome notícias regularmente e que esse hábito segue em expansão. O foco não está apenas nos veículos tradicionais, mas também em jornalistas independentes e criadores especializados em informação, numa tentativa de transformar a plataforma em um ambiente relevante para o consumo de notícias, especialmente as de última hora.

Há aspectos positivos nessa aproximação. A possibilidade de gerar tráfego para sites jornalísticos, formatos adaptados ao consumo móvel e mecanismos de monetização representam alternativas importantes para um setor que busca novos modelos de sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a presença do jornalismo profissional em plataformas de grande alcance pode funcionar como um contraponto à circulação de conteúdos sem apuração.

Unplash

Entretanto, esse cenário inspira cautela. A própria experiência recente mostra que a relação entre grandes plataformas e empresas de comunicação costuma acompanhar mudanças de estratégia corporativa. Google, Facebook e outras empresas já investiram fortemente em programas voltados ao jornalismo antes de rever prioridades. O interesse atual do TikTok pode representar uma oportunidade concreta, mas dificilmente elimina a dependência dos algoritmos e das decisões comerciais da plataforma.

A preocupação torna-se ainda maior quando esse movimento é observado ao lado da fragilidade da comunicação pública brasileira. Enquanto plataformas aperfeiçoam mecanismos para distribuir informação, órgãos públicos frequentemente falham em comunicar políticas, direitos e serviços de maneira contínua, acessível e compreensível. O problema não é necessariamente a ausência de informação, mas sua baixa capacidade de alcançar a população.

Essa lacuna acaba sendo preenchida por conteúdos produzidos fora dos canais institucionais. Parlamentares, influenciadores e criadores de conteúdo passaram a disputar protagonismo na mediação entre Estado e sociedade. Muitas vezes, sessões legislativas, audiências públicas ou debates técnicos são fragmentados em vídeos curtos, recortados para privilegiar emoção, conflito e engajamento, enquanto o contexto original desaparece.

Os reflexos ultrapassam a esfera política. Questões de saúde pública, campanhas de vacinação ou políticas de combate ao bullying ilustram como a ausência de comunicação permanente favorece a circulação de versões incompletas, distorcidas ou deliberadamente falsas. Mesmo quando existem leis, protocolos e programas consolidados, boa parte da população simplesmente desconhece seus direitos ou os canais oficiais disponíveis.

O desafio, portanto, não está em escolher entre plataformas digitais e comunicação institucional. As duas dimensões tendem a coexistir. Redes sociais continuarão sendo um dos principais espaços de consumo de notícias, e ignorá-las seria um erro estratégico. Ao mesmo tempo, transferir integralmente para empresas privadas a mediação da informação pública significa aceitar que algoritmos, e não necessariamente o interesse coletivo, definam quais temas ganharão visibilidade.

Nesse contexto, o jornalismo profissional pode exercer um papel ainda mais relevante. Não apenas por ocupar novos espaços digitais, mas por preservar aquilo que nenhuma plataforma consegue automatizar: a apuração rigorosa, a contextualização dos fatos e o compromisso com o interesse público. Com a atenção disputada segundo a segundo, talvez a informação confiável continue sendo o recurso mais escasso e também o mais necessário.

Isso pode te interessar

Pensar

Entre algoritmos e interesse público

O crescimento do consumo de notícias nas redes sociais cria oportunidades para o jornalismo

Radar Cultural

Play/Replay revisita a estética dos videoclipes dos anos 1990 e 2000

Literatura

A Bahia de Jorge Amado continua viva

Um quarto de século após a morte do escritor, personagens, histórias e costumes criados por ele permanecem no imaginário

Arquitetura & Urbanismo

Estudo mapeia os desafios e as potências do Rio

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.