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Jorge Amado: 25 anos sem o homem, mas com a obra

Redação Culturize-se

Vinte e cinco anos depois de sua morte, Jorge Amado continua sendo um escritor difícil de separar da própria ideia de Bahia. Morto em Salvador em 6 de agosto de 2001, quatro dias antes de completar 89 anos, o autor deixou uma obra que ultrapassou as fronteiras da literatura para se tornar referência na televisão, no cinema, no teatro, na música, na gastronomia e na construção da imagem brasileira no exterior. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, evidência de uma projeção internacional rara entre escritores brasileiros.

A permanência de Amado, no entanto, não se explica apenas pela popularidade. Seu maior legado talvez esteja na capacidade de transformar personagens e ambientes específicos — os coronéis do cacau, os trabalhadores do cais, os meninos abandonados, as prostitutas, os malandros, os religiosos, os artistas e os habitantes das ruas de Salvador — em figuras de alcance universal. “Capitães da Areia”, “Terras do Sem Fim”, “São Jorge dos Ilhéus”, “Gabriela, Cravo e Canela”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Tieta do Agreste” e “Tenda dos Milagres” formam um mosaico no qual a Bahia aparece simultaneamente como território concreto e como invenção literária.

Esse diálogo com a cultura popular foi uma das características que distinguiram sua literatura. Amado aproximou o romance das ruas e incorporou à narrativa manifestações religiosas, culinária, música, sexualidade e oralidade. Também deu protagonismo a personagens negros e mestiços em uma literatura brasileira que durante muito tempo os havia relegado a posições secundárias. Sua relação com o candomblé foi particularmente importante: o escritor recebeu o título de obá no Ilê Axé Opô Afonjá e escolheu Exu, desenhado pelo artista Carybé, como marca pessoal.

A dimensão política também atravessa sua trajetória. Militante comunista na juventude, perseguido e exilado, Amado posteriormente se afastou do Partido Comunista. A experiência política, contudo, permaneceu como parte de sua formação e de livros como “Jubiabá”, “Seara Vermelha” e “Subterrâneos da Liberdade”. Ao longo das décadas, sua obra passou por transformações significativas, até chegar ao humor, ao erotismo e à celebração da vida que marcariam seus romances mais populares.

Foto: Divulgação

A influência de Jorge Amado também pode ser medida pelas amizades que construiu. Conviveu com nomes como Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, José Saramago, Érico Veríssimo, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e João Ubaldo Ribeiro. Com Saramago, manteve uma amizade que resultou em correspondência publicada em “Com o Mar por Meio”.

Sua relação com outros escritores brasileiros também ajuda a dimensionar sua importância. Érico Veríssimo e Amado mantiveram uma amizade de mais de quatro décadas, marcada por cartas sobre literatura, política, censura e os rumos do país. A correspondência dos dois, recém reunida em livro, revela a proximidade entre dois autores que estiveram entre os escritores brasileiros mais populares do século XX.

João Ubaldo Ribeiro, outro baiano fundamental, reconhecia a influência de Amado, embora tenha deliberadamente seguido caminho próprio. Em texto publicado pela Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony observou que Ubaldo não se limitou a repetir o modelo de seu mestre, cuja literatura tinha como centro “o riquíssimo folclore baiano”.

O próprio Amado, curiosamente, relativizava a ideia de grandeza literária. Em “Navegação de cabotagem”, escreveu: “Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato”. Em outro momento, recusou a imagem monumental que a posteridade poderia construir: “Não nasci para famoso nem para ilustre”.

Jorge Amado nunca pareceu interessado em construir uma literatura distante do leitor. Seu projeto foi justamente o contrário: aproximar literatura e vida, erudição e cultura popular, política e prazer, denúncia social e celebração. Vinte e cinco anos depois de sua morte, sua obra continua sendo lida não apenas como representação de uma Bahia que já não existe exatamente como ele a descreveu, mas como uma das mais poderosas invenções literárias do Brasil.

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