Redação Culturize-se
Vamos começar do jeito mais honesto possível: se você fecha os olhos e alguém toca “Just Can’t Get Enough”, do Depeche Mode, ao lado de “Vroom Vroom”, da Charli XCX, sua primeira reação é “mas que diabos é isso?”. E é exatamente aí que mora a história. Synth-pop e hyperpop são, no fundo, duas respostas para a mesma pergunta — até onde o pop pode ser plástico? — separadas por quarenta anos de história.
O synth-pop nasceu no fim dos anos 1970, quando os punqueiros de Londres descobriram que o teclado poderia ser tão subversivo quanto a guitarra distorcida. Kraftwerk na Alemanha, Gary Numan na Inglaterra, e depois a invasão britânica: Depeche Mode, The Human League, Eurythmics, Pet Shop Boys — gente que fazia melodia de rádio com máquinas frias. O timbre era limpo, a batida era quadrada, a voz ficava no meio-termo entre o melancólico e o dançante. O Brasil, claro, deu seu recado: Guilherme Arantes, Marina Lima e a fase eletrônica dos anos 80 provaram que o sintetizador também falava português.
Já o hyperpop é filho direto do SoundCloud e do tédio pós-2015. Lançado como etiqueta pelo Spotify em 2019, o gênero pega o pop e o passa no liquidificador: vocais pitchados, distorção intencional, bases que explodem sem aviso. A tríade sagrada: SOPHIE (a pioneira, homenageada até com Doodle do Google), Charli XCX e 100 gecs, os malucos de “money machine” que transformaram ska, screamo e EDM num caldo só. No Brasil, a cena fervilha: Teto Preto, BINI, Supercombo do hiper, e o chamado hyper mandelão, com a Valesca Popozuda virando sample em pista de rave.

Hibridismo
Aqui está a graça: a fronteira é porosa. Charli XCX começou no synth-pop teen e hoje é a rainha inconteste do hyperpop — brat levou o gênero para o mainstream mundial. Robyn flerta com os dois lados desde “Dancing on My Own”. Caroline Polachek faz arquitetura sonora que cabe em qualquer das gavetas. Arca mistura experimentalismo com o pop latino. E CHVRCHES, quintessência synth-pop, já colou com Marshmello sem perder a pose.
Em números, os Estados Unidos e o Reino Unido seguem ditando o streaming, com a Suécia entrando forte: “Midnight Sun”, de Zara Larsson, flertou com o hyperpop e alcançou top 5 em casa e top 10 no Reino Unido. Vale o olho no Japão, onde o dariacore — microgênero derivado — virou objeto de culto na onda de remixagens locais.
Nos palcos, o hyperpop invadiu os grandes: Coachella, que em 2026 apostou em nomes adjacentes como PinkPantheress e o Camp Flog Gnaw Carnival, de Tyler, The Creator, que mistura hyperpop e EDM no cardápio. O synth-pop, veteranão, brilha em festivais como Primavera Sound. Todavia, nunca é demais lembrar: nada disso existiria sem aquelas máquinas de 1979 zumbindo baixinho.
O resto, como sempre, é história e graves bem apertados.