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Wanda Pimentel ganha mostra inédita no Rio com série de desenhos nunca exibida

Redação Culturize-se

A galeria Fortes D’Aloia & Gabriel promove, na Carpintaria, no Rio de Janeiro, a exposição Wanda Pimentel – Percurso em Preto e Branco. A mostra marca a primeira apresentação individual da artista em sua cidade natal desde sua morte, em 2019, e destaca um conjunto inédito: a série Animais, composta por desenhos em preto e branco produzidos entre 1965 e 1967, período inicial de sua trajetória.

Essas obras revelam uma faceta pouco conhecida da artista carioca, cuja produção posterior consolidou-se pela geometria rigorosa e pelo diálogo entre objetos cotidianos e espaços domésticos. Nos desenhos da série, Pimentel se vale de linhas vibrantes e superfícies densamente preenchidas, criando um verdadeiro bestiário estilizado. Entre besouros, cangurus, tartarugas, morcegos, girafas e corujas, a artista experimenta texturas e formas que se distorcem em composições pulsantes. O resultado sugere tanto uma investigação gráfica quanto a construção de um universo próprio, marcado por ritmo e intensidade.

A historiadora da arte Vera Beatriz Siqueira, em ensaio que acompanha a exposição, observa que essa fase evidencia o papel central da linha no trabalho de Pimentel e antecipa preocupações que atravessariam toda a sua produção. “Em Wanda, os animais parecem afirmar a base gráfica e a posição central conferida à linha, que define questões de sua obra, ao mesmo tempo que anunciam a questão temática e plástica do ‘envolvimento’, das relações entre criaturas, objetos e seus ambientes — centrais em seu trabalho”, escreve.

Reconhecimento internacional

A exposição no Rio acontece em um momento de renovada visibilidade internacional para Wanda Pimentel. Sua obra Sem título (da série Envolvimento, 1969) foi recentemente incorporada à coleção permanente do MoMA, em Nova York, e integrou a mostra Vital Signs: Artists and the Body, organizada por Lanka Tattersall em 2024. Paralelamente, a artista participa da exposição Pop Brasil: Vanguarda e Nova Figuração, 1960-70, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, reafirmando sua relevância dentro da narrativa da arte brasileira e latino-americana do período.

Foto: Divulgação

O reconhecimento também reforça o caráter singular da produção de Pimentel, que dialoga com a Pop Art internacional sem se encaixar totalmente em seus parâmetros. Enquanto artistas norte-americanos exploravam a iconografia industrial e o consumo de massa, a carioca empregava formas sintéticas para investigar o isolamento individual e coletivo durante a ditadura militar brasileira, tensionando tanto a dimensão política quanto a experiência subjetiva.

Arte e contexto

Nascida no Rio em 1943, Wanda Pimentel construiu uma obra marcada por rigor formal e crítica velada. Seus interiores de aparência impessoal, produzidos a partir do final da década de 1960, são atravessados por objetos domésticos e fragmentos de corpos femininos, funcionando como metáforas visuais de confinamento e de uma identidade feminina em tensão com os papéis sociais impostos. Esse conjunto insere-se no contexto de censura e repressão da ditadura, mas também reflete sobre o lugar marginal da arte brasileira no debate internacional.

A mostra Percurso em Preto e Branco, ao resgatar a série Animais, oferece ao público a oportunidade de acompanhar os primeiros passos da artista rumo a essa linguagem singular. Ao mesmo tempo, lança luz sobre um momento em que a imaginação e o gesto gráfico se colocavam como ferramentas de exploração e liberdade.

A exposição, cuja entrada é gratuita, permanece em cartaz na Carpintaria, no Jardim Botânico, até 25 de outubro.

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