Por Reinaldo Glioche
“All Her Fault” se impõe desde os primeiros minutos como um thriller psicológico rigoroso, desconfortável e formalmente ambicioso, interessado menos em soluções fáceis do que em explorar as fissuras morais e emocionais que emergem diante de uma tragédia. A série do Peacock, disponível no Brasil no Amazon Prime Vide, combina ritmo implacável, estrutura narrativa sofisticada e um olhar incisivo sobre culpa, julgamento social e maternidade em um ambiente de vigilância permanente. Ao transformar o desaparecimento de uma criança em um campo de batalha de versões, silêncios e autojustificativas, a produção se destaca por tratar o suspense não como um fim em si mesmo, mas como ferramenta para investigar relações de poder e fragilidade humana.

A premissa inicial toca diretamente em um medo primal. Marissa Irvine chega para buscar o filho de cinco anos, Milo, após um suposto encontro entre crianças e descobre que ele não está ali — e nunca esteve. A mulher que atende à porta não reconhece seu nome, não confirma a visita e não sabe quem é a criança. Uma ligação para a anfitriã que teria organizado o encontro apenas amplia o abismo de incerteza. Em poucos minutos, a rotina cotidiana se dissolve em pânico absoluto. Essa escalada acontece antes mesmo da abertura da série, uma decisão estrutural da criadora e roteirista Megan Gallagher que define o tom: não haverá tempo para acomodação emocional.
Baseada no romance de Andrea Mara, “All Her Fault” articula duas linhas temporais complementares. Uma acompanha, quase em tempo real, a investigação sobre o desaparecimento de Milo; a outra retrocede por meio de flashbacks que expõem relações passadas, conflitos latentes e escolhas equivocadas dos personagens. Esse vai-e-vem não apenas sustenta o suspense, como constrói um retrato progressivamente mais complexo de um grupo de pessoas que, à primeira vista, parecia funcional e bem-ajustado. O que emerge é um mosaico de falhas individuais e coletivas, no qual ninguém está completamente isento de responsabilidade.
O elenco numeroso funciona como um sistema de suspeitas em constante mutação. A série transforma praticamente todos os personagens em potenciais culpados ou, no mínimo, moralmente comprometidos. Cada episódio reposiciona o olhar do espectador, desestabilizando certezas e desmontando julgamentos apressados. O detetive Alacaras, vivido por Michael Peña com contenção e humanidade, atua como um eixo precário de ordem. Sua atuação evita o arquétipo do investigador infalível e reforça um dos temas centrais da série: a impossibilidade de separar totalmente vida pessoal e função institucional.
O grande diferencial de “All Her Fault”, no entanto, está no modo como centraliza a experiência feminina sem recorrer a simplificações. A narrativa compreende que o desaparecimento de uma criança não gera apenas dor, mas também uma cadeia de acusações explícitas e implícitas que recaem de forma desproporcional sobre as mulheres. A maternidade surge como um espaço de permanente escrutínio, no qual qualquer falha, real ou imaginada, pode ser transformada em prova de negligência moral. O título da série funciona, assim, como uma acusação móvel: “toda a culpa é dela”, independentemente dos fatos.
Essa lógica se expressa com força nas relações conjugais. Maridos aparecem frequentemente como figuras que oferecem apoio retórico, mas se esquivam da responsabilidade prática. Em um flashback particularmente revelador, um pedido desesperado de ajuda com um bebê é respondido com a pergunta burocrática sobre o que exatamente deve ser feito. A cena sintetiza a crítica da série à chamada incompetência instrumentalizada, em que a ausência de iniciativa se disfarça de boa vontade.





Formalmente, “All Her Fault” aposta em um jogo sofisticado com a percepção do público. O roteiro não engana de maneira explícita, mas manipula informações por meio de omissões estratégicas, mudanças de ponto de vista e recontextualizações sucessivas. O espectador é levado a revisitar suas próprias conclusões a cada episódio, percebendo-se cúmplice do mesmo impulso acusatório que atravessa os personagens. Quando alguém afirma, mais adiante, “eu realmente não vi isso chegando”, a frase ecoa como comentário metanarrativo sobre a experiência de assistir à série.
O suspense, portanto, não se sustenta apenas em reviravoltas, mas na tensão entre memória, narrativa e culpa. Poucos personagens podem ser classificados como inteiramente bons ou maus. Quase todos acreditam estar agindo por razões compreensíveis, protegendo alguém ou evitando um mal maior. É nesse território cinzento — nos argumentos internos que justificam decisões moralmente frágeis — que a série encontra sua densidade psicológica.
Ancorada em atuações sólidas e em um roteiro que recusa atalhos, “All Her Fault” se firma como mais do que um thriller eficiente. Trata-se de uma investigação incômoda sobre como sociedades atribuem culpa, como narrativas são construídas para tornar o insuportável administrável e como o julgamento coletivo pode ser tão destrutivo quanto o crime em si. É uma série tensa, exigente e deliberadamente desconfortável.