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Sushi, sangue e animação adulta

Redação Culturize-se

Numa Los Angeles de futuro próximo, quem manda não são chefões do crime, e sim chefs. Restaurantes funcionam como facções rivais, status gastronômico vale mais do que dinheiro e um sushiman misterioso chamado Jiro tem uma regra inegociável: nada de shoyu. A premissa, absurda e sangrenta de propósito, sustenta “Get Jiro”, que estreou no Adult Swim em 3 de outubro e chegou à HBO Max no dia seguinte. Baseada nas graphic novels de Anthony Bourdain e Joel Rose e produzida pela Warner Bros. Animation e pela DC Studios, a série tem Brian Tee na voz do protagonista e mistura vingança, sátira da cultura gastronômica e violência de faca na mão em episódios de meia hora.

Jiro é um bom ponto de partida porque mostra até onde a animação para adultos chegou. Há uma década, uma ideia assim provavelmente ficaria na madrugada da TV. Hoje, ela divide catálogo com séries que já ganharam Emmy e a unanimidade da crítica. E o cardápio, na Netflix e na HBO Max, é mais variado do que parece.

Na Netflix, o nome que costuma encerrar a discussão é “Arcane”. Passada no universo do jogo League of Legends, a série acompanha duas irmãs separadas por uma guerra entre uma cidade rica e seu subúrbio oprimido. Estreou com 100% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e venceu o Emmy de melhor programa de animação duas vezes, em 2022 e em 2025. A segunda temporada dividiu mais a crítica, com reparos ao ritmo, mas o acabamento visual quase nunca é questionado.

Foto: Divulgação

“Blue Eye Samurai”, com 97% no mesmo agregador, conta uma história de vingança no Japão do período Edo, protagonizada por uma espadachim mestiça que esconde a origem. Alterna brutalidade de filme de Tarantino com momentos de contemplação. A segunda temporada está prevista para janeiro de 2027, e uma terceira e última foi anunciada em agosto. Já “BoJack Horseman”, de 2014, segue como referência para quem quer comédia que dói: o ator-cavalo em decadência virou retrato de depressão, vício e vergonha, e já foi considerado pela BBC a melhor animação do século 21. “Castlevania”, com cerca de 94%, prova que adaptação de videogame cheia de vampiros pode render drama de verdade. E a antologia “Love, Death + Robots” serve de vitrine para estilos de animação do mundo todo, um curta por vez.

Na HBO Max, a lógica é outra. O catálogo herda o espírito do Adult Swim, o que inclui tanto o humor nonsense quanto algumas das séries mais ousadas em linguagem. “Primal”, de Genndy Tartakovsky, criador de “Samurai Jack”, conta a aliança entre um neandertal e uma tiranossauro quase sem diálogo. Tem 100% no Rotten Tomatoes, e a violência faz parte da emoção. “Planeta dos Abutres”, feita para a plataforma, segue sobreviventes de uma nave de carga num planeta alienígena de natureza hostil e hipnótica. Também chegou aos 100% e entrou em listas de melhores de 2023, mas teve vida curta: foi cancelada depois de uma temporada.

“Rick and Morty” segue como a série mais conhecida da casa. Mais de uma década depois da estreia, a nona temporada registrou 100% no Rotten Tomatoes, dado raro para uma comédia tão longeva. Em volta dela, o Adult Swim ainda oferece “Harley Quinn”, “Metalocalypse” e “Laboratório Submarino 2021”, títulos de humor ácido notório.

Cena de “Bojack Horseman” | Foto: Divulgação

Há uma diferença curiosa entre o que a crítica premia e o que as curadorias populares recomendam. Os veículos brasileiros tendem a colocar no topo séries de humor e de muitas temporadas, como “BoJack”, “Big Mouth” e os clássicos do Adult Swim. As listas internacionais mais recentes valorizam as serializadas e de acabamento visual raro, como “Arcane”, “Blue Eye Samurai” e “Planeta dos Abutres”. Nenhuma das duas está errada: uma mede a companhia que a série faz ao longo dos anos, a outra o fôlego autoral.

Para o espectador, a consequência é prática: começar por onde a curiosidade mandar. Quem gosta de ação estilizada encontra em Jiro e em “Blue Eye Samurai” bons pontos de entrada. Quem prefere drama de personagem tem “BoJack”, e quem quer ficção científica e silêncio tem “Primal” e “Planeta dos Abutres”. “Get Jiro”, que terá dez episódios, ainda tem tempo de mostrar se entra nessa lista.

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