Redação Culturize-se
Há uma cena em “O Diabo Veste Prada” em que Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, olha para Andy Sachs e enxerga, por baixo da ingenuidade, algo que vale a pena moldar. Quase vinte anos depois, a vida imita a arte; só que desta vez quem enxergou o potencial foi o próprio mercado de moda, e a transformação é de Anne Hathaway, não de sua personagem.
A atriz, que completa 44 anos em 2026, atravessou fases estilísticas radicalmente distintas ao longo de duas décadas de carreira. Da “garota da porta ao lado” dos anos 2000 à musa que Donatella Versace escolheu para estampar sua coleção mais icônica, a trajetória de Hathaway na moda é uma das mais bem documentadas — e debatidas — do entretenimento contemporâneo.

No início dos anos 2000, quando estourou com “O Diário da Princesa”, Hathaway carregava uma estética coerente com sua personagem: acessível, simpática, sem pretensões de vanguarda. Vestidos sobre jeans, camisetas gráficas e escolhas seguras dominavam seus tapetes vermelhos. Era um estilo de época, não de intenção — e não a posicionava como referência de moda.
O divisor de águas chegou em 2006. Interpretar Andy Sachs não foi apenas um salto na carreira: foi uma imersão no universo da alta costura que, segundo a própria atriz, mudou sua relação pessoal com a roupa. “O filme me tornou mais consciente e apreciativa do poder da vestimenta”, ela já declarou. A partir daí, Valentino e Armani começaram a aparecer em seus looks de red carpet, sinalizando uma transição deliberada para um território mais sofisticado.
Em 2011, ao apresentar o Oscar com múltiplos figurinos ao longo da noite, Hathaway transformou a cerimônia num desfile pessoal e o mundo da moda começou a prestar atenção de verdade.
Entre 2012 e 2019, após raspar a cabeça para “Os Miseráveis”, a atriz adotou um estilo de maturidade marcado pela elegância contida. Os looks eram impecáveis, mas a imprensa especializada apontava certa previsibilidade. “Seguros demais” era o adjetivo que reaparecia. Hathaway estava bem vestida, mas não estava arriscando.
Esse equilíbrio frágil entre beleza e ousadia só seria resolvido quando ela encontrou Erin Walsh.
A “Anne-aissance” e o Valentino rosa que parou o mundo
A partir de 2022, com a stylist Erin Walsh ao seu lado, Hathaway entrou naquilo que a imprensa de moda passou a chamar de Anne-aissance — uma renascença estilística que a devolveu aos holofotes com uma intensidade inédita. Walsh adotou uma filosofia clara: alfaiataria impecável e silhuetas que realçam a personalidade da atriz em vez de competir com ela.
O resultado foi imediato. O vestido rosa Valentino do Met Gala se tornou um dos looks mais comentados da temporada, sintetizando o movimento Barbiecore antes mesmo de ele ganhar esse nome. A Vogue France foi direta: o estilo atual de Hathaway é “profundamente pessoal”, não apenas o produto de uma boa equipe criativa.
A Versace foi além. Donatella escolheu a atriz para protagonizar a campanha da coleção Icons — e não poupou elogios. “Ela é um talento incrível, mas também uma mulher maravilhosa. Ela faz a coleção ganhar vida”, disse a estilista italiana. O título de “mulher Versace por excelência”, concedido por Donatella, funciona como um atestado de que a transformação é reconhecida por quem mais entende do assunto.
A Bulgari completou o tripé ao convidá-la para embaixadora global, garantindo que joias de alta gama passassem a integrar sistematicamente seus looks de tapete vermelho.





A Geração Z e o tapete vermelho como plataforma
O que talvez ninguém esperasse é que a Anne-aissance conquistasse justamente a Geração Z. No TikTok, vídeos compilando seus looks das Semanas de Moda acumulam milhões de visualizações. A imprensa brasileira — Vogue e Elle Brasil entre elas — a celebra como referência de ageless style, um estilo que não envelhece porque não se prende a uma única fórmula.
A transformação de Andy Sachs, que volta aos cinemas na tardia continuação de “O Diabo Veste Prada”, foi roteirizada. A de Anne Hathaway é real e ainda está em curso.
