Redação Culturize-se
O que começa como resíduo de mineração termina suspenso numa parede, carregado de textura, densidade e cor. É essa trajetória — da extração ao objeto artístico — que a artista Ana Elisa Murta propõe em sua mais recente exposição, instalada num contêiner industrial no jardim da Casa de Metal Espaço Cultural, em São Paulo.
A pesquisa de Ana Elisa tem origem incomum: durante a pandemia, após desenvolver fortes reações alérgicas a insumos industriais, ela passou a produzir suas próprias tintas a partir de minerais coletados em Minas Gerais. O que nasceu como uma solução prática rapidamente se transformou em investigação estética. A artista mergulhou no processo artesanal de extração e preparo de pigmentos e, a partir daí, construiu uma linguagem visual que já circulou por Londres e Abu Dhabi.
“Os minerais não são apenas matéria-prima. Eles carregam uma história geológica, uma origem, e isso passa a fazer parte da obra”, afirma a artista.
Nas pinturas em exposição, isso se traduz em superfícies que não escondem sua origem. A granulação, o brilho irregular, as variações de opacidade — tudo resulta diretamente da composição dos materiais. Diferente das tintas industriais, cada pigmento mineral tem um comportamento próprio, o que torna cada obra única em sua resposta à luz e ao toque.

Além das pinturas, a mostra, em cartaz até 18 de dezembro, apresenta blocos sólidos produzidos a partir de rejeitos minerais. Usando metodologia própria, Ana Elisa compacta esses materiais em estruturas que transitam entre escultura e objeto. “Quando o rejeito ganha volume, ele passa a ocupar o espaço de outra forma e evidencia seu peso, sua densidade e sua origem”, explica.
A escolha do espaço expositivo não é acidental. O contêiner, elemento diretamente ligado ao universo industrial e à logística da mineração, funciona como extensão da proposta artística. Para Flavio Enninger, do Instituto Cultural Quattro, responsável pela Casa de Metal, a obra “materializa de forma clara essa aproximação entre arte e indústria” que o espaço propõe.
Ao transformar aquilo que seria descartado em linguagem, Ana Elisa Murta não apenas questiona os limites do que pode ser arte, mas devolve ao mineral, com toda sua rudeza, uma nova forma de existir no mundo.