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Com cidades flutuantes, Holanda testa o futuro da vida urbana sobre a água

Redação Culturize-se

À medida que a crise climática avança e as inundações se tornam mais frequentes, a Holanda surge como laboratório vivo de um futuro possível: o das cidades flutuantes. Em um país onde um terço do território está abaixo do nível do mar, arquitetos, engenheiros e moradores vêm transformando áreas vulneráveis em espaços habitáveis e sustentáveis, como mostra o bairro de Schoonschip, em Amsterdã, um símbolo global de adaptação urbana.

A comunidade, composta por 30 casas flutuantes, foi submetida a um teste real em outubro de 2022, quando uma forte tempestade atingiu a capital holandesa. Enquanto bairros em terra firme se preparavam para potenciais danos e evacuações, os moradores de Schoonschip apenas reforçaram amarras, garantiram suprimentos e observaram suas casas subirem e descerem com a água. “Nós nos sentimos mais seguros durante a tempestade porque flutuamos”, resume a produtora de TV Siti Boelen, em entrevista à BBC.

Esse modelo, antes considerado excêntrico, agora ganha escala e atenção global. A lógica por trás das casas flutuantes é simples e poderosa. Ao substituir o porão por um casco de concreto e apoiar as estruturas em postes de aço profundamente fixados no solo, as construções se adaptam ao aumento da água — em vez de combater a natureza. Pré-fabricadas com madeira, vidro e aço, muitas dessas residências incluem três andares, telhados verdes, painéis solares e bombas de calor, tornando-se exemplos de sustentabilidade integrada.

O urbanista Koen Olthuis, fundador do escritório Waterstudio e responsável por mais de 300 projetos do tipo, vê nelas uma mudança de paradigma comparável à invenção do elevador. “Agora temos a tecnologia e a possibilidade de construir sobre a água”, afirma. Para ele, a água deixa de ser inimiga e se torna ferramenta para ampliar cidades diante da falta de terrenos e da crescente ameaça climática.

A transformação não é apenas arquitetônica; é também política e cultural. O município de Amsterdã revisa leis de zoneamento para facilitar novas construções, enquanto cidades como Roterdã — 90% abaixo do nível do mar — já incorporam edifícios comerciais flutuantes, fazendas com robôs que ordenham vacas e pavilhões abastecidos por energia solar. O país adota ainda o programa “Espaço para o Rio”, que permite inundações controladas para diminuir riscos em áreas densamente povoadas.

A busca por soluções ganhou impulso internacional. Projetos inspirados nos holandeses estão em andamento nas Maldivas, onde 80% do território está a menos de um metro acima do mar, na Polinésia Francesa e até em uma proposta de cidade flutuante no mar Báltico, que poderia abrigar 50 mil pessoas conectadas por um túnel ferroviário submarino de US$ 16,9 bilhões. Nesses casos, as construções vão além do abrigo e incluem recifes artificiais sob as plataformas e sistemas de ar-condicionado que usam água fria do oceano profundo.

Foto: Isabel Nabuurs

Ainda assim, morar sobre a água não é experiência isenta de desafios. Vento forte, chuvas intensas e até o deslocamento de navios podem fazer as estruturas balançarem. “Quando me mudei, as tempestades faziam o terceiro andar balançar; sentimos no estômago”, lembra Boelen. A adaptação, porém, costuma vir com o tempo. Também é necessário ampliar cabos, bombas e microrredes de energia e saneamento, o que aumenta custos e complexidade de implantação.

Mesmo assim, especialistas afirmam que os benefícios superam os obstáculos. Com projeções que estimam centenas de milhões de pessoas deslocadas pelo aumento do nível do mar até o fim do século, soluções como as cidades flutuantes deixam de ser experimentos futuristas e passam a representar alternativas reais.

A experiência holandesa mostra que a resiliência urbana do futuro pode nascer sobre a água. Em vez de lutar contra o oceano, muitas cidades podem começar a construir com ele.

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