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Bienal do Livro do Ceará 2025 celebra a força das palavras femininas, saberes ancestrais e literatura periférica

Redação Culturize-se

A XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, que segue até o dia 13 de abril no Centro de Eventos do Ceará, se consolida como uma das mais importantes vitrines da cultura literária brasileira. Com o tema “Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura”, o evento reverencia a potência da palavra feminina, a tradição oral dos mestres da cultura popular e a diversidade de vozes que movimentam a cena editorial contemporânea, especialmente a cearense.

Logo nos primeiros dias, o evento bateu recorde de público, com mais de 50 mil visitantes circulando entre estandes, mesas de debate e rodas de conversa. A intensa programação contempla eixos temáticos que vão da literatura de autoria feminina ao reconhecimento dos saberes tradicionais, passando por iniciativas de formação de leitores e valorização de editoras independentes.

No eixo “Oralidades, Ancestralidades e Mestres da Cultura”, os saberes populares ganham protagonismo. Cordelistas, capoeiristas, curandeiros, líderes espirituais e mestres da tradição oral dividem experiências com o público em rodas como “Conversas Ancestrais: Artes da Tradição Oral” e “Narrativas Orais e o Sagrado”. Entre os destaques está a Mestra Terezinha Lima, de 83 anos, que pratica os “dramas” desde a infância, e segue transmitindo esse saber para as novas gerações. “Tenho os mais novos e vou cooperando com eles”, disse a mestra em um dos encontros do fim de semana.

A valorização desses mestres vai além do palco. Reconhecidos oficialmente como Tesouros Vivos da Cultura pelo Governo do Estado, eles também recebem o título de Notório Saber em Cultura Popular, o que lhes permite atuar em atividades acadêmicas. A programação do eixo é coordenada por Simone Castro, que reforça a importância da oralidade como forma de memória e expressão literária.


Abertura da Bienal | Foto: Secom/CE

Outro pilar da Bienal é a cena editorial local e alternativa, representada por livrarias como Substânsia e Reticências, ambas sediadas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. As duas marcaram presença com estandes próprios e uma curadoria que privilegia a produção cearense, os quadrinhos independentes, a literatura infantil e livros sobre design e artes. A Substânsia, por exemplo, levou ao evento nomes como Socorro Acioli, Jarid Arraes, Tércia Montenegro e Stenio Gardel, além de promover encontros com autoras como Helô D’Angelo. Já a Reticências apresentou publicações autorais, como a revista Reticência, e títulos de editoras como Terra da Luz e Bebel Books.

No campo da formação de leitores, o IV Encontro de Mediadores de Leitura também se destaca com o tema “Feminizando a resistência: a chama das palavras das mulheres na mediação de leitura”. A iniciativa, coordenada pela professora Claudiana Nogueira de Alencar, reconhece a força da literatura como prática de resistência e transformação. A programação inclui oficinas, mesas e apresentações com escritores como Stenio Gardel, Bel Santos, Ma Njanu e Patrícia Cacau.

Preponderância feminina

O protagonismo feminino, aliás, atravessa toda a estrutura do evento. Da curadoria geral às mesas principais, as mulheres ocupam o centro das discussões. A Bienal presta homenagem às figuras históricas de Mima Renard, Ursulina de Jesus e Maria da Conceição, mulheres perseguidas pela Inquisição e que agora têm suas narrativas resgatadas como símbolos de resistência.

Entre as vozes da nova geração, destaca-se Thay Gadelha, representante do Slam da Quentura, de Sobral. Poeta e estudante de Direito, Thay encontrou no slam — poesia falada competitiva — um caminho de expressão, acolhimento e afirmação política. “A escrita, para mim, é um compromisso com a memória. Estarmos na Bienal mostra que nosso trabalho está sendo bem feito e ecoando”, disse em entrevista ao jornal cearense O Povo.

Sua trajetória no coletivo Slam das Cumadi e nas edições do livro Às margens: poesia que corta a cidade exemplifica como a literatura marginal e periférica está rompendo barreiras e sendo incorporada aos grandes palcos. A presença do slam na Bienal é vista como um marco simbólico e histórico para a cena cultural cearense.

Além de celebrar o livro, a Bienal 2025 confirma a potência da literatura como ferramenta de escuta, pertencimento e transformação. Com 188 estandes e expectativa de reunir mais de 400 mil pessoas ao longo de dez dias, o evento se firma como um espaço onde diferentes formas de narrar o mundo — do cordel ao slam, da oralidade à escrita — convergem para iluminar, com o fogo das palavras, as muitas formas de existir.

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