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Ecos do passado e vozes do presente: a nova Bienal de Liverpool

Redação Culturize-se

Liverpool é uma cidade moldada por contradições. Muitas vezes vista como um ponto fora da curva, com forte influência irlandesa e distante do centro de poder britânico, também carrega um pesado fardo histórico. Como um dos principais protagonistas do tráfico transatlântico de escravizados, seu passado é marcado por profundo sofrimento. Mas além dessas histórias, há uma cidade definida pela resiliência, pelo espírito cívico e por um olhar voltado para o exterior, moldado justamente por sua posição na margem do país.

Essas complexidades formam o centro da 13ª edição da Bienal de Liverpool (7 de junho a 14 de setembro de 2025), curada por Marie-Anne McQuay, que traz mais de uma década de experiência trabalhando na cidade. O tema, “Bedrock“, é inspirado no arenito sobre o qual Liverpool foi construída e funciona como metáfora para as fundações mais profundas da cidade — colonialismo, migração, família, música, futebol e religião.

“’Bedrock é um esforço para enxergar a cidade tanto de perto quanto de longe”, afirma McQuay. Um dos olhares mais íntimos surge no Bluecoat, onde o filme autobiográfico “Dear Othermother” (2025), de Amber Akou, explora os sistemas de apoio matriarcal entre mulheres da classe trabalhadora de Toxteth, inspirado no provérbio “é preciso uma aldeia para criar uma criança”.

Esse enraizamento segue por toda a cidade. A instalação “Away Terrace (Us and Them)“, do artista turco Cevdet Erek, recria uma arquibancada de futebol a partir de blocos compactos de barro e cevada. Pesquisada em Anfield, ela canaliza a energia tribal dos dias de jogo em uma trilha sonora imersiva e hipnótica, confrontando ideias de pertencimento e exclusão.

Foto: Divulgação

A Bienal brilha quando os artistas dialogam diretamente com os espaços de Liverpool. Em uma associação habitacional de Chinatown, “Scent of Thunderbolts” (2024), de Karen Tam, resgata arquivos da ópera cantonesa; já em uma loja de roupas masculinas, “No Hurry” (2020), de Odur Ronald, apresenta tênis de alumínio incorporados às vitrines, evocando sua infância em Uganda. A HQ “Mapping the Wasteland: PAY AND DISPLAY” (2025), de Kara Chin, com “migalhas” de azulejos espalhadas pelas calçadas da cidade, satiriza os problemas de estacionamento de Liverpool e a fama agressiva de suas gaivotas.

Os espaços espirituais também ganham destaque. Na Catedral Metropolitana, os vibrantes tapeçarias de Isabel Nolan dialogam com os vitrais do templo, enquanto o filme perturbador “HERE WE ARE” (2025), de Elizabeth Price, mergulha na arquitetura católica do pós-guerra. Na Catedral Anglicana, “Where Am I Now?” (2025), delicada obra de Maria Loizdou feita de aço trançado e bordada com pássaros, oferece uma visão de otimismo suave, espelhando o tom esperançoso da Bienal. Como lembra McQuay, “Bedrock é o lugar de onde começamos juntos.”

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