Reinaldo Glioche
Em maio de 2019, um usuário anônimo postou no fórum 4chan uma imagem de um escritório vazio com carpete amarelado e paredes monocromáticas. A legenda era simples, mas perturbadora: “Se você não tomar cuidado e sair da realidade nas áreas erradas, vai acabar nas Backrooms.” Ninguém na época poderia prever que aquela fotografia — acompanhada de uma frase enigmática sobre atravessar a realidade por engano — daria origem a uma das maiores lendas urbanas da internet e, sete anos depois, a um longa-metragem de Hollywood.
“Backrooms: Um Não-Lugar” estreia em 28 de maio nos cinemas brasileiros, com distribuição da Imagem Filmes, trazendo às telas uma das histórias de terror mais curiosas já nascidas no ambiente digital. O filme é produzido pela A24, estúdio responsável por obras como “Hereditário” e “Midsommar”, e conta com a chancela de nomes de peso da indústria: James Wan (“Invocação do Mal”, “Jogos Mortais”) e Shawn Levy (“Deadpool & Wolverine”) assinam a produção, enquanto o roteiro é de Will Soodik (“Homeland”).
O elenco reúne talentos de peso internacional. Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar por “12 Anos de Escravidão” (2013), encabeça o time ao lado da norueguesa Renate Reinsve, indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro por “Valor Sentimental” (2025) e vencedora do prêmio de Melhor Atriz em Cannes por “A Pior Pessoa do Mundo” (2021).
Mas a história mais fascinante por trás de “Backrooms” talvez seja a do próprio diretor.
Do YouTube para a direção de cinema
Em janeiro de 2022, Kane Parsons, então um adolescente britânico de 16 anos conhecido online como “Kane Pixels”, publicou em seu canal do YouTube um curta-metragem de 9 minutos e 14 segundos. Feito em software gratuito de animação 3D, o vídeo transformou a lenda das Backrooms em uma narrativa coesa, com personagens, atmosfera densa e mitologia própria. A peça-chave foi a introdução do Async Research Institute, uma organização fictícia que estuda e documenta as Backrooms, elemento que se tornou canônico entre os fãs.
O impacto foi imediato e avassalador. O vídeo inicial acumula hoje mais de 70 milhões de visualizações. Ao longo de 20 uploads, com média de 20,5 milhões de views por vídeo, Parsons soma mais de 300 milhões de visualizações globais e 2,78 milhões de inscritos em seu canal. A série se consolidou como referência dentro do universo Backrooms e chamou a atenção da A24, que contratou o jovem ainda aos 17 anos. Hoje, aos 20, ele é o diretor mais jovem da história do estúdio.
No fim de abril, Parsons subiu ao Palco Thunder da CCXP México 2026 para falar sobre o filme. Ele explicou que o longa usa sua série como ponto de partida, mas com uma abordagem mais intimista: “Você acompanha tudo através do olhar de indivíduos levando vidas atomizadas e solitárias. No filme, raramente há um momento em que mais de um ou dois personagens aparecem na tela ao mesmo tempo. É um filme bem solitário.”

A produção representa um salto gigantesco em relação às origens caseiras da série. Parsons aprendeu sozinho a modelar ambientes em 3D e levou essa mesma obsessão visual para o cinema, agora em parceria com o diretor de fotografia Jeremy Cox. A equipe construiu quase 3 mil metros quadrados de cenários físicos das Backrooms — tamanho suficiente para que, nas palavras do diretor, “algumas pessoas chegassem a se perder lá dentro”.
A fidelidade ao material original foi levada ao extremo. Foram realizados 50 testes de papel de parede até que a equipe chegasse ao tom exato do amarelo característico do universo. “Construímos Backrooms de verdade, pelos quais poderíamos caminhar”, contou Parsons.

O que torna as Backrooms um terror único?
O diferencial do universo Backrooms não está em monstros ou sustos fáceis, mas em uma regra central que desafia a percepção humana. “O que esse lugar explora é a capacidade do cérebro humano de mapear espaços e compreendê-los”, explica Parsons. “A parte difícil disso é que, se você voltar pelo mesmo caminho, você de fato volta pelo mesmo caminho, mas ele continua sem fim. E aí que mora a confusão. Eventualmente, você desiste de tentar mapear.”
Para o diretor, a força do fenômeno tem raízes psicológicas profundas. “As Backrooms sempre tiveram conexão com o que acontece quando uma pessoa passa por privação sensorial no nível individual: quando você está num quarto vazio, o corpo, o sistema nervoso precisa tanto de estimulação que, privado dela, começa a encontrar ruídos e informações nos padrões das paredes”, analisou.
Parsons também refletiu sobre o sucesso da série e chegou a uma conclusão que vai além do terror: “Backrooms tocou o público por refletir uma ansiedade coletiva em relação ao sistema, seja ele econômico, industrial ou de outra natureza, que vem se acumulando nos últimos séculos.”
Creepypastas: o horror colaborativo da internet
Para entender o fenômeno, é preciso compreender o que são as creepypastas: lendas urbanas nascidas e propagadas na internet, diferenciadas dos contos tradicionais por sua característica colaboracionista. Ao contrário do horror convencional, elas não têm autoria definida nem narrativa fechada — crescem à medida que novos usuários acrescentam detalhes, imagens e versões alternativas em fóruns e redes sociais.
A lenda das Backrooms é um dos exemplos mais perfeitos dessa dinâmica. Do post anônimo no 4chan em 2019, a narrativa se espalhou por diferentes plataformas, ganhando camadas de complexidade a cada nova contribuição. Foi Kane Parsons quem, aos 16 anos, deu forma cinematográfica a esse universo fragmentado, demonstrando o potencial da internet como incubadora de novas mitologias.
Quatro anos após lançar seu primeiro vídeo, o jovem britânico não apenas consolidou uma lenda, como a transformou em uma das estreias mais aguardadas do cinema de terror em 2026.
