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Bienal de Veneza busca equilíbrio em meio a turbulência sem precedentes

Redação Culturize-se

Quando a 61ª Bienal de Veneza abrir suas portas ao público no dia 9 de maio, o que o visitante encontrará não será apenas arte. Encontrará um espelho fraturado do mundo contemporâneo — guerras, sanções, boicotes, lutos e resistências — tudo comprimido nos pavilhões dos Giardini e nas naves imensas do Arsenale. A edição deste ano já entrou para a história antes mesmo de sua abertura oficial, acumulando controvérsias diplomáticas, mortes, recusas e reinvenções que tornam difícil separar a obra do contexto em que ela emerge.

O golpe mais duro veio ainda em 2025. Koyo Kouoh, diretora artística da edição e primeira mulher africana a ocupar esse posto na história da Bienal, morreu de câncer em maio daquele ano, aos 57 anos, semanas antes de anunciar publicamente o título e o tema de sua curadoria. A instituição decidiu honrar seu trabalho e realizar a exposição de forma póstuma. Intitulada In Minor Keys, a mostra reúne 111 participantes e propõe, nas palavras deixadas por Kouoh, uma forma restauradora de resistência — uma escuta atenta em meio ao caos, dando voz a artistas historicamente marginalizados. É uma exposição marcada pela ausência de quem a concebeu, e essa ausência, paradoxalmente, atravessa e amplifica tudo.

O júri que decidirá os Leões de Ouro de 2026 será presidido pela brasileira Solange Oliveira Farkas, fundadora da Bienal Videobrasil em São Paulo e diretora da Associação Cultural Videobrasil. Ao seu lado, nomes como Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi compõem um painel de peso — embora não isento de turbulências próprias. Dyangani Ose, por exemplo, deixou recentemente a direção do MACBA Barcelona após conflito de interesses com sua atuação como diretora artística da Bienal de Abu Dhabi 2027. Há ainda uma ausência simbólica no calendário de premiações: o Leão de Ouro por Trajetória não será concedido este ano, pois Kouoh faleceu antes de fazer a escolha, e a Bienal decidiu não preencher a lacuna.

O papel da política

Se a mostra principal carrega o peso do luto, os pavilhões nacionais carregam o peso da política. A edição conta com cem participações nacionais — sete países estreiam, entre eles Catar, Vietnã e Somália — mas são as presenças de sempre que concentram as maiores tensões.

O retorno da Rússia é o capítulo mais espinhoso. Ausente desde 2022, quando artistas e curadores russos se retiraram voluntariamente após a invasão em larga escala da Ucrânia, o país volta a Veneza sob um formato inédito e revelador: o pavilhão ficará acessível apenas durante os dias de vernissage, entre 5 e 8 de maio, restrito à imprensa e a convidados. A partir da abertura oficial, as portas permanecerão fechadas, e a documentação das obras será transmitida em telas instaladas nas janelas do edifício. A imagem é involuntariamente precisa: a Rússia, visível apenas através do vidro, intocável, isolada.

Imagem do Pavilhão do Brasil | Foto: divulgação

A solução foi articulada para contornar as sanções da União Europeia, que ameaçou suspender dois milhões de euros em financiamento caso a participação russa configurasse violação das normas vigentes. Dentro do próprio governo italiano há rachas: a primeira-ministra Giorgia Meloni manifestou contrariedade à presença russa, enquanto o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini classificou as ameaças europeias de “chantagem vulgar”. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, manteve sua posição: “Não fecho para ninguém.” O júri, por sua vez, decidiu desconsiderar para premiações países cujos líderes enfrentam acusações no Tribunal Penal Internacional — o que exclui efetivamente tanto Rússia quanto Israel da disputa pelo Leão de Ouro.

Israel, por sua vez, enfrenta uma pressão crescente de artistas e curadores. Quase 200 participantes da Bienal assinaram carta pedindo sua exclusão. Uma segunda carta, com mais de 70 signatários da exposição principal, estende o pedido a todos os “regimes que cometem crimes de guerra”, incluindo Rússia e Estados Unidos. O pavilhão israelense nos Giardini está fechado para reformas, e o país ocupa um espaço no Arsenale.

Nos Estados Unidos, o caminho até Veneza foi tortuoso. O Departamento de Estado americano assumiu a curadoria da indicação e reformulou os critérios do edital para alinhar-se ao desmonte de iniciativas de diversidade promovido pela gestão Trump. As novas exigências incluem propostas que “promovam valores americanos” e demonstrem “excepcionalismo e inovação dos EUA”. A escultora Barbara Chase-Riboud, um dos primeiros nomes sondados, recusou o convite com uma frase que ressoou nos bastidores do circuito: “Este não era o momento.” O escolhido acabou sendo o escultor Alma Allen, baseado no México, sob curadoria de Jeffrey Uslip.

Na África do Sul, o pavilhão permanecerá vazio. A artista Gabrielle Goliath foi impedida de participar após recusar alterações solicitadas pelo ministro da Cultura em sua obra — uma performance em homenagem à poeta palestina Hiba Abu Nada, morta em um ataque aéreo israelense em 2023. Goliath entrou com processo judicial contra o ministro. Uma versão em vídeo de seu trabalho será exibida fora da Bienal, em outro espaço da cidade.

Ambição brasileira

Em meio a esse panorama de tensões, o Brasil chega a Veneza com um projeto que aposta na potência da memória e da espiritualidade. Intitulada Comigo ninguém pode, a exposição do Pavilhão do Brasil reúne as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão sob curadoria de Diane Lima, com expografia de Daniela Thomas. O título vem de uma planta conhecida por sua toxicidade — e também por seu poder simbólico de proteção e resiliência.

A proposta parte do diálogo entre três décadas de produção das duas artistas, que se dedicam, cada uma a seu modo, às feridas e traumas coloniais. Paulino trabalha com a figura da mulher negra como tecelã de vida e memória; Varejão simula por meio da pintura materialidades como concreto, carne, talha barroca e cerâmica. A expografia de Daniela Thomas foi desenvolvida para desafiar a arquitetura modernista do Pavilhão, projetado em 1964 por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral — e recentemente restaurado em três fases pela Fundação Bienal de São Paulo.

“O projeto faz um convite para que nos conectemos a uma frequência que abre a possibilidade de ver o transcendente no visível”, explica a curadora Diane Lima, que descreve a exposição como um autorretrato do Brasil pintado com conversas sobre a carne, a natureza e a fé.

No Arsenale, a mostra principal de In Minor Keys percorre um longo corredor de corpos — dilacerados, florescentes, rastejantes. Nick Cave cria figuras humanas de onde brotam galhos e flores. Guadalupe Maravilla denuncia as atrocidades contra crianças detidas nas fronteiras americanas. O israelense Avi Mograbi justapõe imagens de convivência histórica entre judeus e palestinos com registros de suas viagens pelo Oriente Médio. Os corpos estão por toda parte: como protesto, como memória, como flora que cresce sobre as ruínas.

A 61ª Bienal de Veneza é, antes de tudo, um evento sobre o que persiste. Persiste a arte de uma curadora morta. Persistem as guerras que atravessam os pavilhões. Persiste a pergunta, sem resposta fácil, sobre até onde a arte pode ir quando o mundo não para de explodir ao redor.

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