Redação Culturize-se
O Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis (RJ), inaugurou no último sábado (23) a mostra “Insurgências Indígenas: Arte, Memória e Resistência”, uma das maiores exposições já realizadas no Brasil com obras de artistas indígenas. São mais de 250 trabalhos de 54 artistas de diferentes regiões e povos, como Tukano, Desana, Tikuna, Mbya Guarani, Xavante, Karapotó, Tupinambá e Palikur-Arukwayene.
A curadoria é assinada por Sandra Benites, educadora, antropóloga e ativista indígena, em parceria com Marcelo Campos, curador-chefe do Museu de Arte do Rio, e assistência de Rodrigo Duarte. A produção executiva ficou a cargo de Vera Nunes, fundadora da Gentilização.
A proposta da exposição foge ao modelo tradicional: em vez de uma abertura única, o público vem sendo convidado desde maio a participar dos encontros Tata Ypy (“a origem do fogo”, em guarani), rodas de conversa que aproximam o visitante de saberes ancestrais e refletem sobre o que é ser indígena no Brasil contemporâneo. Essas etapas preparatórias desembocam na ocupação artística do Quitandinha, que reúne instalações, gravuras, pinturas, fotografias, esculturas e ilustrações.
De acordo com Campos, a mostra conecta a produção indígena a temas políticos e sociais, como gênero, direito à terra, memória, tecnologias ancestrais e repatriação de objetos sagrados. “Ao trazer artistas de norte a sul do país, ampliamos a visibilidade dessa produção, mostrando como as pautas se repetem no movimento indígena, mas também como se renovam em contextos diferentes”, explica o curador.
Para Benites, trata-se de uma insurgência contra a visão colonial que ainda tenta uniformizar a identidade indígena. “A história do Brasil nunca foi contada por nós. Sempre fomos narrados de fora, reduzidos ao passado. Resistimos em muitas frentes: na preservação das línguas, na luta pelo território, contra a violência e o apagamento. Somos povos de muitas formas, cores e modos de viver. Essa pluralidade, muitas vezes invisibilizada, é também um espaço de luta”, afirma.

Entre as obras em destaque estão um manto Tupinambá confeccionado por Glicéria Tupinambá, peça sagrada feita de penas que remonta ao período pré-colonial; “Alicerce”, de Andrey Guaianá Zignnatto, que confronta a lógica colonial ao sobrepor blocos de concreto a cerâmicas com grafismos indígenas; “Maywaka”, releitura digital de imagens históricas criada por Keyla Palikur; além de instalações como “Avati Morotî”, de Michely Kunhã Poty, e “A memória que hoje volta a brotar”, de Tamikua Txihi.
Para a produtora executiva Vera Nunes, o impacto da mostra é histórico. “Reunir mais de 250 obras que dialogam com a insurgência social, cultural e política desses povos, em diferentes linguagens e territórios, é algo inédito no país. Estamos honrados em partilhar esse legado com o público”, afirma.
“Insurgências Indígenas” reafirma a arte como ato político e espiritual, propondo ao visitante uma reflexão sobre sua própria relação com outras histórias e modos de existir. A mostra se apresenta como um convite à escuta e ao deslocamento — um espaço de resistência e afirmação em 525 anos de luta.