Redação Culturize-se
A arquitetura sensorial emerge no Brasil como resposta a um modelo residencial excessivamente padronizado, marcado por plantas repetidas, fachadas homogêneas e soluções que priorizam a imagem em detrimento da experiência. A recente declaração do cantor João Gomes, ao criticar propostas de casas modernas que ignoravam sua referência afetiva nos alpendres e casarões do sertão nordestino, trouxe ao debate uma questão central: a moradia deve dialogar com a identidade de quem a habita.
Embora o termo ganhe força agora, suas bases teóricas remontam ao século XX. O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa é um dos principais expoentes do pensamento sensorial na arquitetura contemporânea. Em “Os Olhos da Pele” (1996), ele critica a hegemonia da visão na cultura arquitetônica e defende uma experiência multissensorial do espaço, que envolva tato, som, cheiro e percepção térmica. Para Pallasmaa, a arquitetura deve ser “experimentada” com o corpo inteiro, não apenas contemplada como imagem.
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Outro nome fundamental é o suíço Peter Zumthor, cuja obra — como as Termas de Vals — explora textura, acústica, temperatura e luz natural para criar atmosferas imersivas. Mais do que forma, Zumthor trabalha com ambiência. Também Steven Holl, nos Estados Unidos, desenvolveu projetos pautados na fenomenologia do espaço, integrando luz, cor e materialidade como elementos sensoriais estruturantes.
No Brasil, essa abordagem encontra terreno fértil em uma cultura arquitetônica historicamente ligada ao clima, à ventilação cruzada e à integração com o entorno. A valorização contemporânea da arquitetura sensorial, no entanto, surge como contraponto à produção imobiliária seriada, que privilegia eficiência construtiva e linguagem internacionalizada.
“Quando o projeto ignora a identidade de quem vai viver naquele espaço, ele deixa de cumprir sua função principal, que é acolher”, afirma Rose Chaves, arquiteta com mais de 30 anos de atuação e especialista em pisos e revestimentos. Segundo ela, arquitetura sensorial “não é tendência estética, é uma resposta técnica e humana à forma como as pessoas querem se sentir dentro de casa”.

Na prática, isso significa tratar elementos muitas vezes considerados secundários como estruturais: iluminação natural abundante, controle acústico, ventilação adequada, escolha criteriosa de materiais com bom desempenho térmico e texturas que convidem ao toque. A temperatura do piso, a reverberação do som em um ambiente, o cheiro da madeira natural ou a incidência da luz ao longo do dia influenciam diretamente o bem-estar.
Essa abordagem dialoga com estudos da neuroarquitetura, campo que investiga como o ambiente físico impacta o cérebro e o comportamento. Pesquisas indicam que luz natural regula ritmos circadianos, enquanto materiais naturais tendem a reduzir níveis de estresse. Assim, o projeto deixa de ser apenas formal e passa a ser também fisiológico.
Para Rose Chaves, a personalização é parte essencial desse processo. “O contraponto à casa padronizada está no projeto que respeita a história, os hábitos e até a memória afetiva de quem mora ali.” A arquitetura sensorial, portanto, não propõe excesso decorativo, mas coerência entre espaço e indivíduo. A discussão aponta para uma mudança de paradigma. Projetar não apenas para ser visto, mas para ser vivido. Mais do que tendência, trata-se de uma revalorização da arquitetura como experiência humana integral.