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Recorde de bilheteria expõe grave crise na indústria cinematográfica chinesa

Reinaldo Glioche

“Ne Zha 2” é um fenômeno cinematográfico. Com mais de US$2 bilhões arrecadados, é o filme de maior bilheteria de 2025 no mundo e o mais bem-sucedido da história do cinema chinês. Lançado durante o Ano Novo Lunar, tornou-se um evento nacional, com a mídia estatal transmitindo atualizações ao vivo sobre seu desempenho, incentivando fãs a assistirem várias vezes.

Mas por trás do triunfo, esconde-se uma crise crescente. Apesar dos números impressionantes de “Ne Zha 2”, o restante da indústria cinematográfica chinesa enfrenta sérias dificuldades. O filme sozinho representa quase 50% de toda a bilheteria do país neste ano — um dado que evidencia o fraco desempenho de todos os outros lançamentos. Para efeito de comparação, o filme de maior bilheteria nos EUA em 2025, “Minecraft: O Filme”, responde por apenas 10% do mercado doméstico.

Líderes do setor estão soando o alarme. No recente Festival Internacional de Cinema de Xangai, o fundador da Enlight Media, Wang Changtian, cuja empresa produziu “Ne Zha 2”, alertou que a indústria pode estar caminhando para um declínio permanente. Executivos de grandes estúdios compartilharam a preocupação, citando custos de produção em alta e queda acentuada no público. As vendas de ingressos caíram nos últimos quatro meses consecutivos, e a receita geral ainda está mais de 12% abaixo dos níveis pré-pandemia.

Há dez anos, a China estava prestes a ultrapassar os Estados Unidos como o maior mercado cinematográfico do mundo. Com apoio de investimentos governamentais massivos, o país mais que dobrou o número de salas de cinema, superando 80 mil — o maior número do planeta. Mas essa expansão não se traduziu em demanda contínua. Hoje, muitas salas operam com ocupação de apenas 5% a 10%, muito abaixo dos 15% necessários para cobrir os custos.

Foto: Divulgação

Agrava o problema a forte dependência da bilheteria doméstica. Ao contrário de Hollywood, que lucra com merchandising, streaming e vendas internacionais, cerca de 95% da receita de um filme chinês vem da venda de ingressos no país. Depois de descontadas as taxas dos cinemas e os gastos com marketing, os produtores ficam, muitas vezes, com apenas um terço dessa receita.

Para tentar reverter esse declínio, o governo chinês lançou a campanha “Ano do Consumo de Filmes”, oferecendo 140 milhões de dólares em subsídios para ingressos e promovendo novas experiências imersivas de cinema. A gigante Wanda, uma das principais exibidoras, está testando salas temáticas lideradas por influenciadores, que vendem produtos junto com os ingressos.

Outro possível caminho para a recuperação está nos filmes estrangeiros. A China recentemente reduziu o número de filmes dos EUA autorizados para exibição, e títulos sul-coreanos continuam praticamente ausentes devido a tensões diplomáticas. Mas há sinais de mudança: filmes japoneses foram destaque no festival de Xangai deste ano, e mais conteúdo coreano deve retornar em breve.

Ainda assim, o maior desafio da China continua sendo a falta de apelo internacional. Apesar da animação de ponta e dos temas universais de “Ne Zha 2”, o filme arrecadou apenas US$20 milhões nos Estados Unidos – um número expressivo para um filme chinês, mas muito aquém do padrão dos grandes sucessos globais. A estratégia do país de proteger suas produções locais pode ter, involuntariamente, limitado seu crescimento internacional.

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