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Adeus a Luis Fernando Verissimo, mestre da crônica brasileira

Redação Culturize-se

Luis Fernando Verissimo, um dos escritores mais populares e queridos do Brasil, morreu no sábado (30), em Porto Alegre, aos 88 anos. Internado desde o início de agosto no Hospital Moinhos de Vento com pneumonia, o autor enfrentava complicações de saúde nos últimos anos, após um AVC em 2021, além da doença de Parkinson e um câncer ósseo na mandíbula. Sua morte encerra uma trajetória literária marcada pelo humor refinado, a crítica social afiada e uma profunda humanidade, traços que o consagraram como cronista de várias gerações.

Filho de Érico Verissimo, autor de clássicos como “Olhai os Lírios do Campo” e “Incidente em Antares“, Luis Fernando cresceu cercado de livros, mas não imaginava seguir o mesmo caminho. Na juventude, pensou em ser arquiteto, cineasta ou aviador. Foi quase por acaso que entrou para o jornalismo, quando, em 1967, aceitou o convite para trabalhar como copidesque no Zero Hora. Dois anos depois, publicou sua primeira crônica, sobre o Sport Club Internacional, paixão que acompanharia toda a vida.

De lá em diante, não parou mais. Publicou em jornais como O Globo e O Estado de S. Paulo, e ao longo de mais de cinco décadas construiu uma obra de cerca de 90 livros, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos. Sua produção reunia romances, novelas, peças de teatro e roteiros para televisão, mas foi na crônica curta, misto de leveza e acidez, que encontrou sua identidade literária.

Foto: Agência Brasil

Com um humor que transitava entre a ironia política e a ternura cotidiana, Verissimo criou personagens que se tornaram parte do imaginário brasileiro. A Velhinha de Taubaté, última defensora do governo em plena ditadura, era um retrato irônico da credulidade nacional. O Analista de Bagé misturava psicanálise e regionalismo gaúcho, arrancando gargalhadas ao mesmo tempo em que criticava costumes. Ed Mort, detetive atrapalhado, estrelava histórias policiais de sabor cômico. Já as tiras As Cobras e a Família Brasil satirizavam a classe média e seus dilemas.

Suas crônicas também chegaram à televisão. “Comédias da Vida Privada”, exibida pela Globo nos anos 1990, adaptou seus textos em episódios que retratavam o cotidiano com humor e crítica social.

Estilo e reconhecimento

Verissimo escrevia com aparente simplicidade, mas sua prosa revelava um olhar perspicaz sobre política, futebol, amor e morte. “Até hoje ninguém definiu direito o que é crônica. Você pode fazer o que quiser e chamar de crônica. É dessa liberdade que eu gosto”, disse em 2015.

Mesmo filho de um dos maiores romancistas brasileiros, evitou comparações e construiu uma voz própria. Recebeu prêmios literários e de direitos humanos, e em 2013 foi escolhido “Homem de Ideias do Ano”. Apesar do reconhecimento, cultivava a modéstia e o humor autodepreciativo.

Música, futebol e família

Mais do que escritor, Verissimo foi saxofonista apaixonado por jazz. Tocou em grupos como o Jazz 6, com o qual gravou álbuns e se apresentou em Porto Alegre e São Paulo. Frequentador assíduo de shows, dizia ter assistido ao vivo a lendas como Charlie Parker e Dizzy Gillespie nos anos 1950, quando viveu nos Estados Unidos.

Torcedor fervoroso do Internacional, não apenas escreveu sobre futebol — tema recorrente em suas colunas —, mas também transformou o clube em parte de sua vida cotidiana. Sua estreia como cronista, em 1969, coincidiu com a inauguração do Beira-Rio. No velório, sobre o caixão, a família depositou uma flâmula antiga do time, um gesto que simbolizou o vínculo afetivo de toda uma vida.

Casado com Lúcia desde 1969, pai de três filhos e avô dedicado, Verissimo costumava dizer que as três melhores coisas do mundo eram “pudim de laranja, gol do Internacional e netos”. Mantinha sempre um tom de leveza ao falar da vida pessoal, mesmo nos momentos de maior fragilidade.

Um legado de inteligência e afeto

Definir Luis Fernando Verissimo apenas como escritor seria insuficiente. Ele foi cronista, humorista, roteirista, músico, desenhista e observador sensível da alma brasileira. Sua obra é vasta, mas seu impacto talvez seja ainda maior na forma como ensinou a rir de nós mesmos sem perder a ternura.

Ao despedir-se, o Brasil não perde apenas um autor de sucesso, mas uma voz que traduziu, com inteligência e graça, as contradições e afetos de várias gerações. Suas crônicas permanecem como espelhos divertidos e críticos de nossa vida cotidiana.

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