Reinaldo Glioche
Dois filmes lançados recentemente partem de uma premissa semelhante: núcleos familiares submetidos a situações extremas de claustrofobia, desorientação e, em alguma medida, de sobrevivência. Os longas em questão são “A Última Casa”, estrelado pelo brasileiro Wagner Moura e atualmente o filme mais visto do mundo na Netflix, e “O Fim da Rua”, recém-lançado nos cinemas.
Em “A Última Casa”, temos uma família formada pelo pai, interpretado por Wagner Moura, pela mãe, vivida por Greta Lee, e pelos dois filhos. Em um fim de tarde chuvoso, eles se preparam para sair de casa e comprar uma árvore de Natal quando, de repente, descobrem que não conseguem mais deixar a residência. Tudo está trancado. Quando tentam quebrar uma janela, o vidro se recompõe. Quando danificam a porta, a madeira se reconstrói. É uma situação completamente absurda, diante da qual os personagens não conseguem estabelecer uma ordem lógica ou racional.
A partir daí, o filme se desenvolve conforme o tempo passa e novos conflitos e novas premências se estabelecem. E existe, inicialmente, uma ideia bastante interessante por trás disso. “A Última Casa” parece uma alegoria da pandemia e, se tivesse optado por seguir integralmente esse caminho, provavelmente funcionaria muito bem. O problema é que, à medida que o filme começa a revelar o que está efetivamente acontecendo, ele começa também a descarrilar.
Primeiro porque a justificativa oferecida pelo roteiro é pedestre. Depois, porque a convenção de vilão é pouco convincente. E, finalmente, porque os conflitos que conduzem ao clímax são mal elaborados. O resultado é que “A Última Casa” vai se esfarelando enquanto experiência cinematográfica. Se existe algo capaz de conferir alguma dignidade à produção, é a química entre Greta Lee e Wagner Moura, dois grandes atores que conseguem extrair alguma força dramática de um material que, progressivamente, perde a sua.

“O Fim da Rua”, por sua vez, parte de uma situação igualmente absurda. Também temos um pai, uma mãe e dois filhos, mas aqui o bairro inteiro é transportado para o passado, para a era dos dinossauros. E existe uma aproximação bastante evidente entre as duas premissas. Assim como a casa que se fecha sobre aquela família em “A Última Casa” e se transforma em uma espécie de clausura, a família de “O Fim da Rua” também se encontra confinada a um espaço do qual não consegue escapar.
Em ambos os casos, há recursos escassos, desorientação e a sensação de que os personagens estão diante de uma situação potencialmente terminal. A diferença está, entre outras coisas, no ritmo com que esse fim parece se aproximar. Em “A Última Casa”, existe uma espécie de contagem regressiva implícita; em “O Fim da Rua”, a ameaça pode assumir formas diferentes e se apresentar em ritmos distintos. Mas, nos dois filmes, existe essa sensação de desolação, de estar preso em um mundo que deixou de obedecer às regras conhecidas.
É curioso, portanto, que os dois filmes partam de cenários apocalípticos e catastróficos para desenvolver um drama familiar bastante eficiente. Ambos utilizam determinadas convenções de gênero para potencializar conflitos que, em última instância, são domésticos. O fantástico, o absurdo e o apocalíptico funcionam como mecanismos para colocar essas relações familiares sob pressão.
A diferença é que “O Fim da Rua” é muito mais eficiente enquanto filme de ação e enquanto thriller. Evidentemente, também estamos falando de uma produção que dispõe de um orçamento maior, mas não é apenas uma questão financeira. David Robert Mitchell consegue utilizar a gramática visual do cinema para organizar uma narrativa muito mais sedutora e, sobretudo, mais convincente.
Talvez também contribua para isso o fato de Mitchell ser um cineasta mais florido e habilidoso no traquejo cinematográfico do que Louis Leterrier, um diretor mais inclinado ao cinema de ação — o mesmo Leterrier de “Carga Explosiva”, filme que ajudou a revelar Jason Statham. Leterrier sabe construir ação, sabe administrar o espetáculo, mas “A Última Casa” exige justamente outras ferramentas: atmosfera, tensão, ambiguidade e, principalmente, uma dramaturgia capaz de sustentar o mistério depois que ele começa a ser explicado.
Por isso, não deixa de ser curioso que esses dois filmes tenham chegado ao público praticamente ao mesmo tempo e apresentem conflitos tão semelhantes. Ambos colocam famílias diante de circunstâncias inexplicáveis, transformam o ambiente doméstico em espaço de confinamento, exploram a escassez e a desorientação e utilizam premissas de gênero para chegar a resoluções que também guardam alguns pontos de contato.

Mas o resultado não poderia ser mais diferente. Onde “O Fim da Rua” encontra uma maneira de transformar sua premissa extraordinária em uma narrativa emocionalmente envolvente e cinematograficamente sedutora, “A Última Casa” perde justamente aquilo que tinha de mais promissor: a capacidade de fazer do absurdo uma experiência reconhecível. Um consegue transformar o apocalipse em drama familiar sem sacrificar o gênero; o outro sacrifica o próprio potencial do gênero quando tenta explicar o seu apocalipse.
E talvez seja justamente essa coincidência de premissas que torne a comparação tão interessante: colocados lado a lado, os dois filmes demonstram que não é necessariamente a originalidade da situação extrema que determina a força de um filme, mas a maneira como o cineasta decide filmá-la, desenvolvê-la e, sobretudo, resolvê-la.