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Sucessão de escândalos no Brasil avoca discussão sobre anestesia coletiva

Redação Culturize-se

Em sua campanha à presidência, o candidato Renan Santos, do Missão, cunhou uma imagem forte: a de uma população “anestesiada” diante de sucessivos escândalos de corrupção, fixada em candidaturas que carregam esse passivo como se fosse parte da paisagem política. A frase é retórica de campanha e como tal, seletiva e interessada, mas o diagnóstico que ela evoca não é novo nem exclusivo de um espectro político. A naturalização do escândalo e a fadiga moral coletiva culminaram na substituição da indignação pelo hábito. Vale a pena separar a frase de campanha do fenômeno que ela nomeia, e explorar este último com algum rigor.

O escândalo como espetáculo, não como exceção

Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo” (1967), já descrevia um mundo em que a experiência direta dos acontecimentos é substituída por sua representação midiática — e em que a repetição incessante de imagens esvazia o próprio conteúdo que elas veiculam. Aplicado ao Brasil contemporâneo, o argumento sugere algo perturbador: quando a corrupção deixa de ser evento e passa a ser rotina noticiosa — uma nova operação, uma nova delação, um novo áudio, semana após semana —, ela migra da categoria do escandaloso para a categoria do previsível. O escândalo que se repete demais deixa de escandalizar; vira formato, não fato.

Essa leitura dialoga com o conceito de dessensibilização por exposição repetida, estudado pela psicologia social, mas ganha em Debord uma camada política: o espetáculo não apenas cansa, ele também substitui a ação pela contemplação passiva. Assistir ao escândalo, comentá-lo nas redes, indignar-se por alguns minutos e seguir adiante — tudo isso pode operar como uma válvula de escape que descarrega a indignação sem exigir nenhuma transformação de comportamento eleitoral.

A anestesia como função social

Herbert Marcuse, em “O Homem Unidimensional” (1964), oferece talvez o conceito mais diretamente aplicável à ideia de “anestesia”: a dessublimação repressiva. Para Marcuse, sociedades avançadas produzem satisfações imediatas — consumo, entretenimento, conforto cognitivo — que neutralizam o impulso crítico sem reprimi-lo abertamente. Não é preciso calar o cidadão; basta mantê-lo ocupado, confortável e cronicamente distraído. A “anestesia” de que fala Renan Santos, lida com essas lentes, não seria um simples déficit de informação — o eleitor brasileiro é, em geral, bem informado sobre os escândalos —, mas um déficit de disposição para agir diante da informação que já possui.

Aldous Huxley, em “Admirável Mundo Novo”, havia antecipado essa mesma intuição de outro ângulo: o controle social mais eficiente não é o que aterroriza (como em Orwell), mas o que distrai e apazigua. Zygmunt Bauman acrescenta uma peça importante. Em “Modernidade Líquida”, ele descreve como vínculos sociais e compromissos éticos se tornam cada vez mais frágeis, substituídos por lealdades voláteis e identitárias. Em textos posteriores, Bauman recupera o conceito de adiaforização — o processo pelo qual certas ações ou fatos são retirados da categoria do “moralmente relevante” e tratados como neutros, técnicos, sem peso ético. A corrupção, nesse quadro, pode sofrer um processo análogo: deixa de ser julgada como transgressão e passa a ser processada como custo de transação da política, algo como “é assim mesmo, sempre foi”.

Hannah Arendt, com o conceito de banalidade do mal — cunhado em “Eichmann em Jerusalém” para um contexto radicalmente distinto e mais grave, e que convém aqui usar com cautela e por analogia estrutural, não por equivalência moral —, chamou atenção para como atos graves se tornam administráveis, rotineiros, quando praticados dentro de burocracias e repetidos como procedimento. A analogia útil não é entre corrupção e genocídio, mas entre dois mecanismos psicológicos: a rotinização esvazia o juízo moral tanto de quem comete quanto de quem observa.

Nenhum ensaio sobre o tema estaria completo sem os intérpretes brasileiros do próprio Brasil. Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, descreveu o “homem cordial” — não como sinônimo de gentileza, mas como um tipo social que tende a confundir o público com o privado, a lei com o afeto, a norma com a exceção negociável. Roberto DaMatta, em “Carnavais, Malandros e Heróis”, desenvolveu essa intuição na famosa oposição entre a “casa” (onde regem afeto e hierarquia pessoal) e a “rua” (onde deveriam reger lei e impessoalidade) — e no símbolo do “você sabe com quem está falando?”, que revela uma sociedade em que a lei é permanentemente relativizável conforme quem a invoca.

Marilena Chauí, por sua vez, insiste que o autoritarismo brasileiro não é apenas um regime político eventual, mas uma estrutura social persistente, baseada em hierarquias naturalizadas — o que ajuda a explicar por que a transgressão de quem está “em cima” tende a ser recebida com menos espanto do que a de quem está “embaixo”. Se a hierarquia é vista como natural, a transgressão de quem manda pode parecer, perversamente, menos chocante — quase prerrogativa do poder.

Imagem gerada por IA

E aqui não se pode deixar de citar Millôr Fernandes, cronista, dramaturgo e um dos maiores aforistas que o país produziu. Millôr fez da ironia um instrumento de diagnóstico social muito antes de qualquer sociólogo de gabinete. Frases suas como “o Brasil é um país que não sabe o que quer, mas já quer em dobro” ou o icônico “não creio em democracia federativa: com tanto ladrão de galinha por aí, e não se ouve um pio das galinhas” (parafraseando o espírito de suas críticas mordazes à impunidade) expõem exatamente o mecanismo que Marcuse chamaria de dessublimação: o riso funciona como descarga. Rimos do escândalo, compartilhamos o meme, e o gesto crítico se esgota ali, sem se converter em ação política subsequente. Millôr entendia isso melhor do que ninguém — seu humor era, ao mesmo tempo, bisturi (revelava a ferida) e anestesia (aliviava a dor de encará-la sem tratá-la). Essa ambiguidade é, talvez, a chave de leitura mais brasileira para o fenômeno que Renan Santos tenta nomear em linguagem de campanha.

Uma camada mais contemporânea vem de Byung-Chul Han, que em “Sociedade do Cansaço” descreve sujeitos exauridos não pela repressão externa, mas pelo excesso de estímulos, de escolhas, de demandas de atenção — um “excesso de positividade” que paralisa mais do que qualquer proibição. Aplicado à política, o argumento sugere que a fadiga informacional (WhatsApp, redes sociais, ciclos de notícia de 24 horas) produz um tipo de exaustão cognitiva que se confunde com indiferença, mas é, na verdade, esgotamento.

Uma ressalva necessária

É preciso, contudo, tratar a tese da “anestesia” com o mesmo ceticismo que ela merece aplicar aos outros. Primeiro, é uma tese conveniente a qualquer candidato que se apresente como alternativa aos nomes estabelecidos: ela implica que o eleitorado que não o escolhe está, por definição, em estado de menor lucidez — um argumento que carrega risco de soberba moral e de desqualificar a razão alheia em vez de disputá-la.

Segundo, cientistas políticos oferecem explicações concorrentes, não necessariamente incompatíveis, mas mais matizadas: a chamada “polarização afetiva” (identidade partidária funcionando como identidade de grupo, não como avaliação racional de desempenho), o voto retrospectivo seletivo (eleitores toleram mais a corrupção de quem entrega resultados econômicos ou sociais percebidos), e o simples fato de que, numa eleição, o voto é sempre comparativo — entre alternativas disponíveis, não entre a candidatura real e um padrão ético abstrato. O que parece “anestesia” vista de fora pode ser, vista de dentro, um cálculo — ainda que moralmente discutível — de custo-benefício entre corrupção e outras prioridades (emprego, segurança, identidade cultural).

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