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Preocupante e necessário, ‘Artificial’ abre os olhos para o avanço implacável da IA

Por Patrícia Dantas, de Londres

Com direção do aclamado Luca Guadagnino, “Artificial” teve sua estreia no Reino Unido durante a 70ª edição do Festival de Cinema de Londres, que chegou ao fim no último domingo (18). Totalmente sintonizado com os debates mais urgentes da atualidade, o filme mergulha na ascensão meteórica da OpenAI, originalmente concebida como uma organização sem fins lucrativos, e foca na espiral de tensão que culminou na emblemática destituição de Sam Altman do cargo de CEO em novembro de 2023, seguida por sua readmissão cinco dias depois.

A narrativa desenha um embate moral claro. De um lado, como a voz da consciência e da integridade científica, está Ilya Sutskever, cofundador da empresa interpretado de forma brilhante por Yura Borisov (indicado ao Oscar há dois anos por “Anora”). Do outro, estabelecendo o contraponto antagônico, surge Sam Altman. Em uma atuação cirúrgica, Andrew Garfield despe o executivo de qualquer idealismo, entregando uma figura repulsiva, egocêntrica e dissimulada, capaz de fazer o espectador se contorcer na cadeira.

O roteiro não poupa o espectador do cinismo corporativo. Em um dos momentos mais tensos da trama, ao ser confrontado pela diretora de tecnologia Mira Murati (Monica Barbaro) sobre os riscos e o impacto social do ChatGPT, Altman rebate friamente: “Eu não inventei o suicídio de adolescentes, Mira.”

Esse e outros dilemas éticos servem de combustível para profundos embates filosóficos sobre o paradoxo definitivo da nossa era: a urgência por segurança contra o ritmo desenfreado da aceleração tecnológica. Nesse âmbito, a figura de Geoffrey Hinton – considerado o “padrinho da inteligência artificial”, vivido com sensibilidade por Mark Rylance – atua como o farol de cautela que tenta guiar seu ex-associado, Ilya Sutskever.

Foto: Divulgação

Ao longo dos anos, Hinton tem feito alertas contundentes sobre os riscos existenciais dessa tecnologia, argumentando que a inteligência digital pode superar a capacidade humana muito mais rápido do que prevíamos.

A referência ao clássico “O Exterminador do Futuro”, de 1984, traduz perfeitamente esse temor: o risco real de que sistemas autônomos desenvolvam objetivos próprios e escapem definitivamente ao controle da humanidade.

No desfecho de “Arficial”, quando a ética parece sucumbir definitivamente ao mercado, Altman dispara para Sutskever uma frase que ecoa como um aviso sombrio: “Abrimos a caixa de Pandora. Países cairão, indústrias entrarão em colapso, e seremos nós a conduzir a humanidade para este novo mundo.”

O sentimento de desconforto deixado pelo filme cresce ao lembrarmos que a ficção apenas reflete a realidade. O futuro da nossa sociedade está concentrado nas mãos de poucos gurus do Vale do Silício, como o próprio Altman e Elon Musk – este último interpretado com um humor ácido e preciso pelo ator Ike Barinholtz no longa-metragem.

Mesmo antes de estrear no circuito comercial, “Artificial” já carregava a marca da controvérsia. O projeto foi integralmente desenvolvido e financiado pela Amazon MGM Studios que, surpreendentemente em junho, abriu mão da distribuição. O movimento gerou especulações nos bastidores, especialmente pelo fato de a gigante de Jeff Bezos manter investimentos exorbitantes na OpenAI.

Dialogando diretamente com o espírito de “Artificial”, o público testemunhou uma dinâmica semelhante com “Bunker”, drama estrelado pelo casal Penélope Cruz e Javier Bardem, também exibido no Festival de Cinema de Londres. Na trama, Bardem interpreta um arquiteto que decide recusar o convite multimilionário de um gigante da tecnologia para projetar um abrigo subterrâneo de segurança máxima. É uma resistência moral que, no final das contas, dita o tom de ambas as obras, que expõem o tamanho da paranoia da elite global e a urgência de se impor limites àqueles que tentam moldar – ou se isolar de – um futuro perigoso.

Marcando a segunda colaboração de Luca Guadagnino com Andrew Garfield desde “Depois da Caçada” (2025), “Artificial” acaba de ser adquirido pela Paris Filmes para distribuição no Brasil. O longa tem estreia marcada para 21 de janeiro de 2027, em plena temporada do Oscar.

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