Por Reinaldo Glioche
O cinema de Baltasar Kormákur tem se consolidado, sobretudo em sua fase hollywoodiana, a partir de um interesse quase obsessivo por situações-limite. De “Everest” (2015) a “Vidas à Deriva” (2018) e “A Fera” (2022), seus filmes orbitam o embate entre o humano e forças que o excedem — sejam elas naturais, físicas ou psicológicas. Em “O Jogo do Predador”, recém-chegado à Netflix, essa lógica se mantém, mas ganha contornos mais íntimos ao incorporar um jogo psicológico entre presa e predador.
A premissa é direta: a personagem de Charlize Theron, uma mulher marcada por um trauma recente, se isola em uma região remota da Austrália para lidar com o luto à sua maneira — solitária, quase autossuficiente, movida por uma relação ambígua com o risco. O prólogo, uma cena de alpinismo particularmente eficaz, estabelece não apenas o evento traumático, mas também essa pulsão por adrenalina que define a personagem. Ainda assim, o filme opta por não aprofundar mais detidamente sua psicologia: há o suficiente para gerar empatia, mas não para complexificá-la de fato.
É nesse cenário inóspito que surge a figura vivida por Taron Egerton, um antagonista que desde a primeira aparição carrega a marca do desvio. Há algo de caricatural em sua construção — um psicopata ritualístico que se aproveita do isolamento geográfico para operar à margem de qualquer vigilância —, mas Egerton sustenta o papel com energia suficiente para que ele nunca se torne apenas uma abstração. Seu personagem entende o território como extensão de si: arma, manipula, transforma a paisagem em dispositivo de caça.

Kormákur estrutura o filme como um jogo de gato e rato em que as posições de predador e presa são constantemente tensionadas. Ao mesmo tempo, mantém latente o conflito maior entre homem e natureza, elemento recorrente em sua filmografia. É nesse ponto que “O Jogo do Predador” se destaca: formalmente, o filme impressiona. As escolhas de enquadramento, a exploração do espaço e o uso da geografia como vetor dramático conferem uma dimensão estética rara dentro do catálogo recente da Netflix. Não por acaso, há quem o aponte como um dos poucos títulos da plataforma que efetivamente “parecem cinema”.
No entanto, essa força visual não encontra pleno respaldo no roteiro. Certas soluções narrativas apelam para a conveniência e para uma condescendência que dilui a tensão construída. Dramaturgicamente, o filme poderia ser mais rigoroso; falta-lhe a coragem de sustentar suas próprias premissas até as últimas consequências. Isso não compromete seu valor como entretenimento — o filme é ágil, envolvente e funcional —, mas o impede de alcançar um patamar mais singular dentro do gênero.
Ainda assim, há um elemento que eleva o conjunto: o embate entre Theron e Egerton. Com um elenco reduzido, o filme depende quase exclusivamente dessa dinâmica, e ambos respondem à altura. Há fisicalidade, há tensão e, sobretudo, há uma colisão dramática que renova o interesse a cada novo movimento da narrativa.
“O Jogo do Predador” pode não escapar completamente da trivialidade em seus caminhos, mas encontra, na direção segura de Kormákur e no duelo de seus protagonistas, razões suficientes para se destacar como um thriller sólido e raro exemplar de cinema dentro do streaming.