Redação Culturize-se
Basta abrir qualquer rede social em ano eleitoral para encontrar o vocabulário da clínica convertido em arma de debate. O adversário está “surtado”, o vizinho é “paranoico”, o parente que pensa diferente “perdeu o juízo”. Quando o ruído aumenta, surge a expressão-síntese: “psicose política”.
Não se trata de um conceito consolidado. Nenhum manual de psiquiatria reconhece o quadro, e a ciência política não o adota como categoria. É uma metáfora de ensaístas e colunistas, mas com genealogia, e com razões para ter pegado no Brasil.
A referência mais citada é o filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, para quem o psicológico passou a ocupar o lugar do político. Na leitura dele, a geopolítica cede espaço a uma “geopsicose”, movida pela chamada psicosfera, o espaço mental em que se misturam desejo, emoção e medo. O psicanalista peruano Jorge Bruce usou a ideia para descrever a política de seu país. No Brasil, o psicanalista Carlos de Almeida Vieira escreveu no Jornal de Brasília, em 2024, sobre “aspectos psicóticos” da política nacional. Para ele, a polarização é uma experiência arrogante, em que cada lado se ancora em fantasias de onisciência e onipotência e acredita ser o único dono da verdade.
É aí que entra a psicologia política, área que investiga como emoções, personalidade, senso comum e subjetividade moldam a consciência política. Seus precursores são Gustave Le Bon e Sigmund Freud, que já pensavam a psicologia das multidões e dos laços coletivos. O campo ganhou corpo na América Latina e tem associação própria no Brasil. Sua premissa é simples: ninguém vota apenas com argumentos. Identidade, medo e pertencimento pesam tanto quanto programas de governo.
O parente mais próximo da “psicose” nessa literatura é a paranoia. Nos anos 1960, o historiador Richard Hofstadter popularizou a ideia de “estilo paranoico” na política americana, até hoje a tentativa mais influente de aplicar a categoria ao estudo da vida pública. O ensaísta argentino José Fernández Vega lembra que o termo nasceu no século XIX como uma das três formas de psicose. Ele recorre a Ricardo Piglia para sustentar que, antes de ser quadro clínico, a paranoia é uma resposta à crise de sentido. Quando o funcionamento da sociedade se torna opaco para indivíduos cada vez mais isolados, a conspiração oferece uma explicação.

Daí se tira uma pista sobre a popularidade da metáfora. Em um ambiente de bolhas, algoritmos e desinformação, no qual cada grupo enxerga o outro como ameaça existencial, a acusação de delírio circula nos dois sentidos. Chamar alguém de “psicótico” é um atalho: dispensa discutir o argumento, transfere ao adversário o ônus da irracionalidade e costuma render engajamento. É uma leitura que o referencial da psicologia política permite, não uma tendência medida.
Os próprios estudiosos fazem ressalvas. O pesquisador Eduardo Mourão Vasconcelos, em artigo de 2020 sobre os diagnósticos atribuídos a Jair Bolsonaro por comentaristas, argumenta que o rótulo psiquiátrico individualiza e simplifica um fenômeno coletivo e complexo. Ele propõe olhar para processos políticos, econômicos, culturais e comunicacionais. Já um artigo publicado em 2023 no Journal of the History of Ideas conclui que o próprio “estilo paranoico” é uma noção indeterminada, e por isso sua aplicação pode ser arbitrária e ideológica. O rótulo serve a qualquer lado, o que ajuda a explicar sua circulação e também sua fragilidade. Há ainda a questão ética: associações de psiquiatria, como a americana, desaconselham opinar sobre o estado mental de figuras públicas sem avaliação direta.
O custo da metáfora, portanto, é triplo. Ela banaliza sofrimentos psíquicos reais ao usá-los como xingamento. Estigmatiza quem convive com esses transtornos. E encerra a conversa, porque ninguém negocia com quem foi declarado fora da razão. Em um país prestes a decidir um segundo turno presidencial, talvez a pergunta mais útil não seja quem está “psicótico”, mas por que tantos brasileiros sentem que o outro lado vive em outra realidade.