Reinaldo Glioche
A televisão linear está perdendo, pouco a pouco, até aquilo que durante décadas parecia pertencer exclusivamente a ela: as grandes cerimônias de premiação. O Emmy pode ser o próximo capítulo dessa transformação. Segundo informações da Variety, a Academia de Artes e Ciências Televisivas está em negociações avançadas para transferir a transmissão anual do Emmy para o Amazon Prime Video, encerrando uma tradição iniciada em 1949 e, mais especificamente, o chamado “wheel deal”, sistema de rodízio entre ABC, CBS, Fox e NBC que vigorava havia 31 anos na transmissão nos EUA.
A possível mudança não seria um episódio isolado, mas mais um sinal de uma indústria que já entendeu que o público das grandes cerimônias não está necessariamente diante de um aparelho de televisão no horário marcado. O SAG Awards já migrou da televisão linear para a Netflix. E o movimento mais simbólico de todos virá em 2029, quando o Oscar deixará a ABC e passará a ser transmitido globalmente pelo YouTube.
O Emmy, portanto, estaria apenas seguindo uma corrente que parece irreversível. O curioso é que, no Brasil, essa transição já deixou de ser novidade. A transmissão do Emmy 2026, por exemplo, ocorreu simultaneamente pela TNT e pela HBO Max, que abriga as principais cerimônias de premiação, evidenciando como o streaming já funciona entre nós como extensão natural — e, em alguns casos, como destino principal — das grandes premiações internacionais.

Há, porém, uma diferença importante entre abandonar a televisão e simplesmente acrescentar o streaming à equação. A questão econômica parece ser decisiva. O antigo acordo do Emmy rendia à Academia pouco mais de US$ 8 milhões anuais, segundo a Variety. Um contrato com uma única plataforma permitiria, além de negociar uma nova licença, criar um interesse comercial mais consistente: quem transmitir o Emmy este ano também terá interesse em promovê-lo no ano seguinte.
É uma lógica bastante diferente daquela do rodízio entre emissoras. No modelo anterior, uma rede investia no espetáculo sabendo que, no ano seguinte, o benefício promocional seria do concorrente. A exclusividade de uma plataforma resolve esse problema, mas cria outro: concentrar os ovos em uma única cesta.
A Academia conhece bem esse risco. Em 1987, a Fox comprou os direitos do Emmy oferecendo muito mais que as grandes redes. O resultado foi uma queda expressiva de audiência. Décadas depois, o problema mudou de natureza: já não é apenas quem paga mais pelo Emmy, mas onde está o público capaz de fazê-lo continuar relevante.
E talvez essa seja a pergunta mais importante. O Emmy continua sendo um dos grandes símbolos da excelência televisiva, mas sua audiência diminuiu radicalmente. A última edição com mais de 10 milhões de espectadores ocorreu em 2018; em 2025, a cerimônia transmitida pela CBS reuniu 7,59 milhões nos Estados Unidos.
Migrar para o streaming, portanto, pode parecer menos uma ruptura do que uma adequação ao mundo que o próprio Emmy celebra. As séries premiadas sequer são exibidas na TV. Parece consequencial o rumo que se avizinha.