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Emmy se rende a Apple em edição de escolhas previsíveis

Reinaldo Glioche

O Emmy já não representa, necessariamente, o grau de excelência que um dia representou. Há premiações da crítica, e aqui penso sobretudo naquelas que acompanham televisão com maior proximidade e menos apego à tradição, que hoje parecem mais eloquentes na tarefa de identificar o que de melhor está sendo produzido. A Academia de Artes e Ciências Televisivas pode ter perdido parte dessa autoridade artística. Mas seria um erro confundir isso com irrelevância. O Emmy ainda carrega uma dimensão histórica e um prestígio que não podem ser desprezados. Ganhar um Emmy continua significando alguma coisa: confere reconhecimento, peso cultural e relevância artística a uma produção ou a um artista

É justamente por isso que o grande personagem do Emmy 2026 talvez não seja uma série, um ator ou uma atriz, mas uma plataforma: o AppleTV.

Lançada em 2019, a Apple construiu em velocidade impressionante uma reputação que suas concorrentes levaram muito mais tempo para estabelecer. E o Emmy deste ano cristaliza essa transformação. A Apple teve 89 indicações em 15 produções — mais do que qualquer outra plataforma nas principais categorias de drama e comédia — e terminou a temporada de premiações como a grande força do Emmy.

Há um aspecto particularmente revelador nessa ascensão: a Apple produz menos séries do que Netflix, HBO Max ou Amazon e, ainda assim, sua presença entre as produções de prestígio é desproporcionalmente grande. É como se a empresa tivesse conseguido transformar quantidade em curadoria. Não se trata de afirmar que tudo o que a Apple faz é excepcional, evidentemente. Trata-se de reconhecer que ela construiu uma espécie de grife de qualidade.

“Ted Lasso” foi o primeiro grande cartão de visitas. Depois veio “The Studio”, que no ano passado se tornou a comédia de estreia mais premiada da história do Emmy, com 13 troféus. Agora, “Widow’s Bay” levou essa história adiante e estabeleceu um novo recorde: 14 Emmys em sua primeira temporada, incluindo melhor comédia, roteiro, direção e três prêmios de atuação.

É uma sequência que não parece mais acidental. A Apple construiu autoridade na comédia e, ao mesmo tempo, demonstra que sua força não está restrita ao gênero. “Slow Horses”, presente pelo quarto ano consecutivo entre os melhores dramas, ganhou direção em drama, enquanto “Pluribus” levou dois dos principais prêmios da noite, incluindo o de atriz para Rhea Seehorn. E a presença da Apple era impressionante: havia três séries da plataforma entre as oito indicadas a melhor drama e três entre as oito indicadas a melhor comédia.

A HBO, que durante décadas foi a grande grife de prestígio da televisão americana, aparece agora em uma posição diferente. Continua fortíssima — e “The Pitt” venceu novamente como melhor drama —, mas já não reina sozinha. A vitória de “DTF St. Louis” como melhor série limitada foi especialmente feliz: é uma produção que merece ser descoberta e cujo triunfo pode ajudar a ampliar seu público.

A premiada equipe de “The Pitt” | Fotos: Peacock

E “The Pitt?” Sua segunda vitória consecutiva é legítima, sobretudo quando olhamos para o campo efetivamente selecionado pelo Emmy. O problema está justamente aí. Não faltaram grandes dramas na temporada; faltou ao Emmy uma peneira mais ambiciosa. Dentro do conjunto que a Academia decidiu colocar diante de seus votantes, porém, “The Pitt” era mesmo uma escolha defensável. A série venceu também para Noah Wyle, novamente extraordinário como Dr. Robinavitch.

Esse talvez seja o grande saldo do Emmy 2026: a Academia não inovou muito, mas foi fiel a si mesma — e, desta vez, isso funcionou.

As categorias de atuação oferecem bons exemplos. Há o Emmy do hábito, como Jean Smart, vencedora pela quinta vez consecutiva por “Hacks”, e Allison Janney, novamente premiada por “The Diplomat”. Há Sally Field, cuja vitória por “Criaturas extraordinárias” também pertence a essa zona de previsibilidade.

Mas há também escolhas mais salutares. Rhea Seehorn finalmente ganhou por “Pluribus”. Noah Wyle repetiu a vitória e, honestamente, era novamente o melhor entre os indicados. E Matthew Rhys produziu o momento histórico da noite ao se tornar o primeiro intérprete a conquistar dois Emmys de atuação principal na mesma edição: comédia por “Widow’s Bay” e série limitada por “The Beast in Me”. Com o prêmio de drama que havia conquistado por “The Americans”, em 2018, completou ainda a rara façanha de vencer nas três grandes categorias de atuação.

Matthew Rhys entrou para a história da premiação com um recorde difícil de se igualar

O Emmy, portanto, não recuperou a autoridade absoluta de outros tempos. Mas também não saiu diminuído desta edição. Foi pouco ousado na escolha do campo de batalha e bastante coerente na escolha dos vencedores. E há uma diferença importante entre essas duas coisas.

No fim das contas, talvez a maior notícia seja mesmo aquela que atende pelo nome de Apple. A plataforma chegou ao Emmy 2026 como uma força emergente e saiu dele como algo mais difícil de ignorar: uma grife consolidada de televisão de prestígio. A HBO ainda está no jogo. A Netflix perdeu tração. E a Apple, em poucos anos, descobriu algo que parecia improvável quando lançou seu serviço: não precisava produzir mais televisão do que as concorrentes. Precisava produzir televisão que o Emmy quisesse premiar.

E, neste ano, premiou — muitas vezes.

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