Redação Culturize-se
Paraty voltou a se transformar na capital literária do Brasil entre os dias 22 e 26 de julho, quando a 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu cerca de 40 mil visitantes — o maior público da história do evento e um salto de 17,65% em relação ao ano anterior, quando a prefeitura contabilizou 35 mil pessoas na cidade. O Centro Histórico expandido chegou à lotação máxima nas pousadas, o Programa Educativo somou 15 mil participantes e a festa bateu também o recorde de casas parceiras: 46, contra 39 em 2025, somando quase mil atividades entre programação oficial e paralela.
Os números marcaram a estreia da livreira e crítica literária Rita Palmeira à frente da curadoria. Sob sua condução, a Flip escolheu como homenageada a poeta paulista Orides Fontela (1940-1998), cujos versos deram nome às 21 mesas do Auditório da Matriz. A escolha de uma autora menos popular, porém, não se refletiu nas prateleiras: a lista de mais vendidos da livraria oficial, operada pela Livraria da Travessa, foi liderada por Valter Hugo Mãe, com “O Século dos Imbecis”, seguido por Socorro Acioli e seu livro de estreia na feira, “Amar é Inadiável”, e por Paulliny Tort, com “Os Imortais” — um indicativo de que o público segue priorizando a ficção contemporânea sobre a poesia da própria personagem central do evento.
As mesas que definiram a edição
Se a programação principal teve força, foram as casas parceiras que concentraram alguns dos momentos de maior repercussão. A participação da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis precisou ser remanejada da Casa Sesc para uma tenda no Sesc Caborê, com capacidade para 700 pessoas, diante da procura, e ainda assim foi necessário transmitir o debate em telões para quem ficou de fora.
No Auditório da Matriz, a escritora inglesa Zadie Smith discutiu colonialismo, imigração e racismo em mesa mediada por Juliana Borges. Já a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia protagonizou o que a organização descreveu como a maior mesa da festa: os ingressos para o encontro, mediado pela jornalista Paula Miraglia, esgotaram em 15 minutos, e a plateia a aplaudiu de pé ao ouvi-la intercalar defesas da democracia e dos direitos das mulheres com histórias pessoais. Na ocasião, a ministra também lançou o livro “Pela Mão do Povo — Voto e Democracia no Brasil”, organizado com Heloísa Starling e Nayara Henriques, que fechou entre os dez títulos mais vendidos da feira.
A programação internacional reuniu ainda encontros como o do guatemalteco Eduardo Halfon com a argentino-brasileira Paloma Vidal, da angolana-portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida com o franco-argelino Kamel Daoud, e a conversa virtual entre o líbio-americano Hisham Matar e Milton Hatoum sobre memória e autoritarismo. A angolana Ana Paula Tavares, vencedora do Prêmio Camões em 2025, e a alemã Carmen Stephan, em diálogo com Drauzio Varella, completaram o time de nomes que atraíram grandes públicos.

Recordes convivendo com falhas estruturais
Nem tudo, porém, correu sem tropeços. Na quinta-feira, 23, uma falta de energia atingiu o centro histórico da cidade pouco antes da chegada do maior fluxo de visitantes do fim de semana, obrigando a programação principal a seguir com o apoio de geradores. A tradicional tenda de transmissão por telão, criada para ampliar o acesso às mesas do Auditório da Matriz, concentrou parte das reclamações do público: menos assentos que em edições anteriores, problemas de áudio, interrupções na transmissão e falhas na tradução simultânea de encontros internacionais. Um tumulto também foi registrado durante a mesa que reuniu a escritora Conceição Evaristo e a ministra Cármen Lúcia, evidenciando os limites da infraestrutura diante de um público em franca expansão.
Esses percalços ganham outro contorno quando confrontados com o cenário orçamentário. Segundo a curadora Rita Palmeira, a Flip 2026 operou com um orçamento 48% menor que o da edição anterior, reflexo de um ano eleitoral e da cautela de patrocinadores diante das incertezas do cenário econômico e político. Mesmo assim, a festa conseguiu crescer em público e em programação — um resultado que a organização atribuiu à força da grade paralela e à adesão das casas parceiras, que, pela primeira vez, tiveram seu roteiro reunido em um livreto organizado pela influenciadora Tatiany Leite.
Um retrato de contrastes
A Flip 2026 termina, assim, como uma edição de contrastes: recorde de público e de casas parceiras convivendo com corte orçamentário histórico; uma homenageada poeta cujo prestígio simbólico não se traduziu em vendas; debates sobre democracia e direitos das mulheres dividindo espaço com falhas de infraestrutura e um apagão. Na coletiva de encerramento, a própria organização reconheceu que o crescimento da festa trouxe novos desafios — da convivência entre atividades oficiais e paralelas à sustentabilidade do modelo em uma cidade histórica com capacidade limitada.
Ainda assim, o saldo é de fortalecimento: entre a resistência simbólica encarnada pelas falas de Cármen Lúcia e Angela Davis e o apelo comercial dos autores mais vendidos, a Flip reafirmou, em sua 24ª edição, que a literatura segue sendo capaz de mobilizar dezenas de milhares de pessoas — mesmo, ou talvez justamente, em tempos de escassez e incerteza.