Redação Culturize-se
Poucos filmes recentes chegam aos cinemas cercados por tanta curiosidade quanto “Backrooms”. Produzido pela A24 e dirigido por Kane Parsons, de apenas 20 anos, o longa representa um caso raro de propriedade intelectual criada integralmente na internet que se transforma em uma grande produção de Hollywood. Mais do que isso, o filme coloca no centro da narrativa um elemento frequentemente subestimado pelo público: a arquitetura como fonte de terror.
A origem do projeto remonta a 2019, quando uma imagem aparentemente banal foi publicada no fórum 4Chan. A fotografia mostrava uma sala vazia revestida por papel de parede amarelo e iluminada por lâmpadas fluorescentes. A partir dali, usuários de diferentes plataformas passaram a construir coletivamente uma mitologia sobre um lugar chamado “Backrooms”, um labirinto infinito de corredores, escritórios e ambientes repetitivos dos quais não haveria saída.
O conceito rapidamente ganhou vida própria em fóruns, vídeos e redes sociais. Entre os fascinados pela ideia estava Kane Parsons, então com 16 anos. Utilizando o software de modelagem 3D Blender, ele produziu em 2022 um curta-metragem inspirado na lenda digital. O vídeo viralizou, acumulando milhões de visualizações e dando origem a uma série de episódios que expandiram o universo dos Backrooms.
Leia também: “Backrooms”, o terror que a internet inventou e Hollywood adotou
Agora, a história chega ao cinema em uma adaptação estrelada por Chiwetel Ejiofor. No filme, um vendedor de móveis descobre um portal escondido no porão de uma loja e se vê diante de um espaço aparentemente infinito, formado por corredores e salas que desafiam as leis da geometria.

O aspecto mais interessante da produção é que o medo não nasce de criaturas sobrenaturais. O verdadeiro antagonista é o próprio ambiente. Os Backrooms pertencem à categoria dos chamados “espaços liminares”, locais de transição que parecem familiares, mas que provocam desconforto justamente por estarem vazios ou deslocados de sua função original. Escritórios abandonados, hotéis desertos, estacionamentos sem movimento e corredores sem fim despertam uma sensação de estranheza difícil de explicar racionalmente.
A ideia de transformar a arquitetura em elemento de horror, no entanto, não é inédita. Um dos exemplos mais famosos é “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick. O Hotel Overlook não funciona apenas como cenário, mas como uma entidade opressiva que parece manipular seus habitantes. Os corredores intermináveis e a disposição impossível dos ambientes ajudam a criar uma atmosfera de permanente desorientação.
Algo semelhante acontece em “Suspiria” (1977), de Dario Argento, cuja escola de dança assume contornos quase sobrenaturais por meio de sua arquitetura labiríntica. Em “Relíquia” (2020), a casa da família se transforma gradualmente em um organismo vivo, com corredores impossíveis e cômodos que desafiam a lógica espacial.
O cinema contemporâneo também tem explorado essa vertente. Em “Skinamarink” (2022), portas, corredores e quartos infantis são filmados de maneira fragmentada para produzir uma sensação constante de ameaça. Já em “Mãe!” (2017), de Darren Aronofsky, a residência onde se passa a trama se converte em um espaço sufocante que reflete a deterioração psicológica da protagonista.
Fora do cinema, séries como “Severance” e “Twin Peaks” também utilizaram escritórios, corredores e ambientes cotidianos para gerar inquietação. Nos videogames, títulos como “The Stanley Parable” exploraram a mesma sensação de deslocamento espacial que ajudou a popularizar o conceito dos Backrooms.
O sucesso do projeto pode indicar uma mudança mais ampla na indústria audiovisual. Nascido de uma colaboração espontânea entre milhares de usuários da internet, “Backrooms” demonstra como comunidades online são capazes de criar mitologias tão poderosas quanto as franquias tradicionais. Ao transformar um escritório vazio em fonte de terror existencial, o filme também prova que, no horror contemporâneo, o medo pode estar menos nos monstros escondidos na escuridão e mais nos espaços aparentemente comuns que habitamos todos os dias.

