Redação Culturize-se
Durante três dias, São Paulo deixou de ser apenas cenário e passou a ser protagonista. O LatAm Content Meeting, evento dedicado ao mercado de audiovisual de não ficção da América Latina, encerrou sua segunda edição na última quarta-feira (15) com auditórios lotados, centenas de reuniões individuais realizadas e um recado claro para a indústria global: o conteúdo latino-americano tem escala, tem história e tem mercado.
Mais de 800 profissionais de mais de 20 países passaram pelo evento, entre produtores independentes, distribuidores e executivos de canais brasileiros e estrangeiros. Entre os presentes, 80 tomadores de decisão dos principais canais de televisão e plataformas de streaming do mundo. A edição de 2027 já está confirmada.
“O LatAm Content Meeting foi criado para ser um espaço de negócios, mas também de amizade, feito para as pessoas do mercado se encontrarem, conversarem, se conectarem e quem sabe trabalharem juntos”, disse Fernando Dias, presidente do evento, no encerramento. “E tenham certeza: ano que vem tem mais.”
Um setor que vai além das telas
A abertura do primeiro dia reuniu lideranças institucionais que sinalizaram o peso político e econômico do setor. Juca Ferreira representou o BNDES, Anna Paula Montini presidiu a SPCine e Marília Marton, Secretária de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, marcou presença. O tom foi dado por Montini logo no início: “O mercado audiovisual é uma indústria estratégica. Precisamos enxergar os conteúdos não apenas como obras finalizadas, mas como ativos vivos capazes de gerar valor contínuo através da circulação internacional e da ativação de propriedades intelectuais.”
A afirmação atravessou toda a programação e funcionou como fio condutor das três jornadas: o conteúdo não é produto de prateleira; é propriedade intelectual com vida longa, capaz de circular por mercados, formatos e gerações.
Regulação, streaming e a cadeira vazia das redes sociais
Um dos painéis mais aguardados foi o debate sobre regulação do streaming no Brasil, com Luizio Felipe Rocha, da Strima, Matheus Peçanha, da API, e Mauro Garcia, presidente da BRAVI. O cenário descrito foi o de um setor ainda em construção regulatória, com efeitos práticos incertos tanto para plataformas quanto para produtores independentes.
Garcia foi além do esperado ao provocar uma ampliação do debate: “As redes sociais, como YouTube e TikTok, por atualmente serem grandes hubs de conteúdo, devem participar dessa discussão.” A ausência dessas plataformas nas conversas sobre regulação, segundo ele, cria um desequilíbrio que prejudica toda a cadeia produtiva.
O tema da distribuição ganhou outro ângulo no painel sobre formatos verticais, conduzido por Alberto Marquez, da consultoria espanhola GECA. Com dados da Espanha — onde 60% dos espectadores entre 18 e 34 anos já consomem ficção verticalmente, número que se repete na faixa de 45 a 54 anos — ele foi direto: “Os conteúdos não são mais produzidos para telas, mas para as mãos.” Para Marquez, todos os gêneros têm potencial para a verticalização; do drama ao documentário, do reality ao esporte, com exceção dos obstáculos contratuais que ainda travam o universo esportivo.

Inteligência artificial: ferramenta, não substituto
O segundo dia reservou uma das discussões mais densas da edição: o papel da inteligência artificial no audiovisual. Mediado por Janaina Augustin, referência em inovação no setor, o painel reuniu Danilo Futema, do YouTube, Marcelo Siqueira, da Mistika, e Mauro Guedes, da Shutterstock.
As posições foram complementares e, em conjunto, revelaram uma indústria que ainda tenta calibrar seu relacionamento com a tecnologia. Para Futema, a IA “chegou para desafiar a linearidade” e a indústria precisa aprender a conviver com isso sem a necessidade de controlar todos os seus desdobramentos. Siqueira foi mais cirúrgico: “Na animação, os personagens são coordenados por um artista. Ali você depende de algo que é a alma, e o jeito que aquele personagem vive depende de que tenha alguém com muito talento fazendo aquilo.” Uma sequência de prompts, ele reforçou, não substitui talento, mas as ferramentas podem tornar o setor mais competitivo quando usadas como facilitadoras de processo.
O sucesso dos conteúdos de true crime no Brasil e no mundo pautou dois painéis de destaque. No debate sobre o uso de arquivos em documentários do gênero, os diretores Eduardo Rajabally e Alejandro Hartmann, ao lado da pesquisadora Bruna Rodrigues, defenderam que o material de arquivo não deve ser usado como mera ilustração, mas como “ferramenta capaz de revelar novas camadas de uma história”. O limite ético, contudo, foi lembrado com firmeza: o acesso a materiais sensíveis não justifica exposição irrestrita. O respeito à memória das vítimas e ao sofrimento das famílias é inegociável.
A mesa sobre a fronteira entre realidade e ficção aprofundou o tema com dois casos concretos. A série “Tremembé”, produção que acompanha o cotidiano de detentos, adotou rigor jornalístico em momentos-chave sem abrir mão do cuidado com a imagem das vítimas, segundo a roteirista Vera Egito e Julia Priolli, da Amazon MGM Studios. Já a adaptação da travessia oceânica de Amyr Klink, “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”, precisou transformar um relato técnico de sobrevivência em drama humano — e encontrou o caminho nas entrevistas com a família do navegador, especialmente na relação com o pai, conforme explicaram Bruno Bluwol, da Disney, e Justine Otondo, da Ventre Studio.
Podcasts, realities e o Brasil como exportador de formatos
Dois painéis revelaram um movimento ainda em construção, mas com exemplos concretos de sucesso: o Brasil como produtor e exportador de formatos originais. No debate sobre podcasts, o jornalista Chico Felitti destacou que o formato já chega às telas com uma vantagem: “O podcast é, de certa forma, um conteúdo que já foi aprovado pelo público. Mas não basta reproduzir o que foi ao ar — é preciso ampliar e trazer para mais pessoas.” Branca Viana, da Rádio Novelo, fez um apelo à diversidade geográfica: “Não achem que o mercado está sobrecarregado. Ainda tem muito espaço para produção de qualidade.”

No painel sobre realities, o reality Drag Me as a Queen foi citado como prova de que formatos brasileiros têm musculatura internacional — inclusive em mercados conservadores. Elisa Chalfon, da Netflix, ponderou que a prioridade ao desenvolver projetos como “Casamento às Cegas” é sempre a conexão com o público local. “A universalidade de premissas básicas, como o amor, é o que acaba permitindo o sucesso em qualquer lugar do mundo.”
As sessões de pitch, geridas em parceria com o Sunny Side of the Doc — o maior evento internacional dedicado a documentários, realizado anualmente em La Rochelle, França —, selecionaram 18 projetos divididos em três categorias: Natureza e Meio Ambiente, Investigações & True Crime e História. O vencedor foi “Herança”, documentário dirigido pela jornalista Ana Aranha em parceria com Mariana Genescá e que estampa o head desta reportagem. O filme acompanha a filha de um defensor ambiental assassinado após denunciar os impactos de agrotóxicos em sua região.
O encerramento guardou ainda um anúncio simbólico: durante o painel sobre preservação de acervos, o produtor Zico Goes oficializou que a Kromaki, em parceria com a Mira Filmes e o acervo Abril, produzirá um documentário sobre a MTV Brasil. A direção deve ser de Marina Person, produtora, diretora e ex-VJ da emissora. Uma memória da cultura brasileira que, finalmente, vai ganhar tela.