Redação Culturize-se
Agnès Varda (1928–2019), nome central na história do cinema e figura crucial da Nouvelle Vague francesa, é a personagem principal de uma nova e abrangente exposição que se aprofunda em sua produção menos conhecida: a fotografia. A mostra “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema” será aberta ao público neste sábado, 29 de novembro, no IMS Paulista, com entrada gratuita.
A exposição reúne cerca de 200 fotografias, a maioria clicadas por Varda entre as décadas de 1950 e 1960. O conjunto documental e artístico evidencia como o olhar afetuoso, o humor e o profundo comprometimento social caracterizaram toda a trajetória da artista, desde sua primeira profissão.
Grande parte da mostra é dedicada às viagens da cineasta, onde ela acompanhou grandes transformações da segunda metade do século XX. Entre os destaques estão registros inéditos feitos na China, em 1957, quando Varda integrou uma delegação francesa após a Revolução Maoísta. Suas fotos, tiradas em cidades, fábricas e comunidades rurais, focam nas crianças, vistas por ela como a esperança do futuro, e elaboram uma modernidade em construção através de “fragmentos de vidas comuns”.
O público também encontrará imagens históricas em Cuba, em 1962, pós-revolução, incluindo retratos casuais de Fidel Castro e registros de cerimônias de santería. A incursão de Varda pelos Estados Unidos, entre 1967 e 1968, é marcada pela intensa documentação do movimento Panteras Negras, cobrindo o julgamento de seu cofundador, Huey Newton.
Em diálogo com a produção documental, a exposição também resgata a fase inicial de Varda como fotógrafa oficial do Festival de Avignon e com o Teatro Nacional Popular. Um núcleo importante destaca as fotos da peça Papa Bon Dieu, encenada em 1958 pelos Griôs, a primeira companhia de teatro negro em Paris.


Diálogo entre fotografia e cinema
A curadoria da mostra, coorganizada pelo IMS, o Institut pour la photographie des Hauts-de-France e o Ciné-Tamaris, é assinada por Rosalie Varda (filha da cineasta) e João Fernandes (diretor artístico do IMS). A exposição enfatiza a tensão criativa entre a fotografia, que marcou o início de Varda, e o cinema, que a consagrou.
Essa transição de mídias é explorada em uma instalação mais recente da artista, Instantes Parados (2012). Nela, Varda inverte o fluxo de sua prática, extraindo dez fotogramas consecutivos de seu filme “Os Renegados” (1985) e exibindo-os ao lado do trecho original. Rosalie Varda explica que a obra é a prova de que sua mãe permaneceu “sempre em busca de novas formas de olhar, de pensar e de compartilhar as imagens”.
Como programação complementar, o Cinema do IMS Paulista exibirá uma seleção de filmes de Varda. A sessão de abertura, no domingo (30), terá os curtas “Os Panteras Negras”, “Saudações, cubanos!” e “A Ópera-Mouffe”, seguida de um bate-papo com Rosalie Varda.
Em cartaz até abril de 2026, a exposição reforça o legado de Varda como uma pensadora da imagem, celebrando a articulação de política, ternura e humor em diferentes suportes artísticos.