Redação Culturize-se
Um vaso sanitário totalmente funcional, feito de ouro maciço de 18 quilates, movimentou o mercado de arte em Nova York. A peça, intitulada “America” e criada pelo artista italiano Maurizio Cattelan, foi arrematada em um leilão da Sotheby’s por expressivos US$ 12,1 milhões (cerca de R$ 64,5 milhões), no que é descrito como uma crítica contundente à riqueza excessiva nos Estados Unidos.
Cattelan, conhecido por obras controversas como a banana presa com fita adesiva, vendida por R$ 33 milhões em 2024, utiliza o ouro, um material historicamente ligado ao poder e ao divino, para questionar o estado atual das coisas. O fascínio pelo metal, inclusive, se manifesta na esfera política, com a notória preferência de Donald Trump por acessórios e adornos dourados na Casa Branca.
Obsessão milenar
A atração humana pelo ouro tem raízes profundas, datando de aproximadamente 6.500 anos. Achados como o “ouro de Varna”, na Bulgária, já indicavam hierarquias sociais primitivas, com o metal significando status e poder. Essa simbologia transcendeu culturas, sendo restrito legalmente a elites em impérios como o Inca e o Asteca, e adornando insígnias de governantes e templos religiosos em todo o mundo.

Os antigos egípcios acreditavam que a carne dos deuses era ouro, e os gregos o personificaram como um deus, Chrysos. O poeta lírico grego Píndaro já advertia no século 5º a.C. que “a mente do homem é devorada por essa posse suprema”.
O valor simbólico do ouro é sustentado por suas qualidades únicas. Por ser um “metal nobre”, ele resiste à corrosão e pode ser encontrado em sua forma bruta na natureza. É versátil, maleável, denso e um excelente condutor. O metal pode ser derretido e remoldado infinitamente, sendo, na prática, indestrutível. Sua escassez – estima-se que todo o ouro já extraído caberia em um único cubo de 22 metros de lado – garante seu valor estável a longo prazo.
Em muitas culturas, o ouro transcende a riqueza, sendo um investimento para a segurança futura e um presente de valor inestimável em momentos importantes da vida.
O limite entre o glamour e a cafonice
Apesar de toda a sua história e beleza, o simbolismo positivo do ouro tem seus limites. Quando em excesso ou aplicado de forma inadequada, ele pode perder seu brilho, comunicando falta de bom gosto e até vulgaridade, como exemplificado pelo mito do Rei Midas, cuja maldição transformava tudo em ouro, inclusive sua família.
Exibições ostensivas, como a camisa de 3 quilos de ouro usada pelo agiota indiano Datta Phuge em 2013, frequentemente geram chacota, mesmo sendo uma demonstração explícita de riqueza.
O historiador Peter Bernstein talvez ofereça a melhor definição para o ouro: “Nada é tão inútil e útil ao mesmo tempo.” Uma definição que se encaixa perfeitamente no destino e no preço do vaso sanitário “America”, que se torna o mais novo ícone na longa e controversa história da humanidade com o metal precioso.