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"Amores à Parte" aborda inseguranças que norteiam relações amorosas

Por Reinaldo Glioche

Destaque no último festival de Cannes, “Amores à Parte” é uma comédia sem receios de ser engraçada e o é sem prescindir de ser, também, inteligente. Trata-se de uma equalização difícil nos contextos de Hollywood e do cinema independente. Não obstante, o longa apresenta um quarteto de atores em ótima forma.

A cena de abertura, um achado tragicômico que funciona em um tempo particular, dita o ritmo do longa de Michael Angelo Covino. Ashley (Adria Arjona, revelando um talento cômico cada vez mais exuberante) revela que traiu seu marido Carey (o excelente Kyle Marvin) e que quer o divórcio. Desconcertado, ele busca refúgio na casa do amigo Paul (Covino), que é casado com Julie (Dakota Johnson), apenas para descobrir que o segredo do casal para a comunhão que ostentam é manter um casamento aberto.

O longa não se dispõe a discutir o alcance de relações monogâmicas, mas sim a engenharia que eventualmente nos leva a elas. Trocando em miúdos: o objetivo aqui é tangenciar inseguranças emocionais e como elas moldam nossas relações afetivas. As relações não monogâmicas, nesse escopo, funcionam apenas como um elemento deflagrador da tese que será defendida pelo ótimo roteiro assinado por Covino e Marvin.

Carey acaba tendo uma noite de sexo com Julie e esse ato acaba por instaurar uma crise na dinâmica dela com Paul e a Carey questionar as próprias convecções afetivas. O filme se desenvolve a partir desses conflitos sempre com um olhar muito agudo para o absurdo da situação; ora investindo na comédia física, ora apostando na aspereza de diálogos muito bem costurados pelos atores.

Covino tem ciência de que a audiência está julgando seus personagens e, justamente por isso, resiste a fazê-lo. Ele os aborda com generosidade, mas não se priva de submetê-los a testes que nem sempre passarão. É esse gosto pela verossimilhança, mesmo em situações esdrúxulas, que torna “Amores à Parte” tão irresistível.

O filme pode eventualmente enveredar por um caminho que desagrade parcela do público – e esse é mais um testemunho de sua força criativa -, mas mantém-se fiel ao conceito de destrinchar relações amorosas pela ótica de nossas inseguranças. Todos os personagens representam arquétipos e esses são desconstruídos com assertividade pelo roteiro, embora as atuações afiadas emprestem leveza a essa desconstrução.

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