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Carolina Bianchi conquista Leão de Prata em Veneza com trilogia sobre violência e memória

Redação Culturize-se

Dois anos após causar forte repercussão no prestigiado Festival de Avignon, na França, a atriz, dramaturga e diretora brasileira Carolina Bianchi foi reconhecida com um dos prêmios mais relevantes da cena artística internacional: o Leão de Prata da Bienal de Dança de Veneza, entregue no último sábado (19). A premiação consagra o trabalho da artista que, em suas criações, confronta traumas pessoais e coletivos, explora a origem da misoginia e investiga os limites da sexualidade contemporânea.

O reconhecimento vem na esteira da trilogia “Cadela Força”, iniciada com o impactante espetáculo A Novia e o Boa Noite Cinderela, apresentado em Avignon em 2023. Na peça, com duração de duas horas e meia, Bianchi coloca seu próprio corpo em risco ao consumir um coquetel de tranquilizantes e encenar, inconsciente, a denúncia de um estupro. A performance se inicia com a leitura, em português, de trechos do Inferno, primeira parte de A Divina Comédia de Dante Alighieri, numa conexão entre tradição literária e denúncia corporal. A coragem e complexidade dessa abordagem inserem Bianchi na linhagem de performers radicais como Gina Pane, Marina Abramović e Tania Bruguera.

Nascida em Porto Alegre, Carolina estudou na Escola de Arte Dramática da USP e atuou por uma década na cena paulistana com o coletivo Cara de Cavalo. A escassez de recursos no Brasil a levou, em 2020, a Amsterdã, onde aprofundou seus estudos e deu forma ao projeto da trilogia. Já em 2019, com Lobo, apresentado na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a artista chamou atenção ao dividir a cena com 16 homens em uma performance visceral com dança, sexo e poesia.

A segunda parte da trilogia, A Irmandade, estreou recentemente na Bélgica e também foi exibida em Veneza, na semana da premiação. A obra investiga o conceito de “Brotherhood”, como descrito pela antropóloga Rita Segato, que define a fraternidade masculina como uma rede de cumplicidade que perpetua a violência contra mulheres. A dramaturgia de Bianchi estabelece vínculos entre esse sistema e a própria história do teatro, ao mesmo tempo em que pergunta o que acontece com alguém depois de sobreviver a uma agressão. A artista foi vítima de violência sexual há 12 anos e já revelou que essa experiência foi a semente de sua pesquisa artística.

Foto: Divulgação

Ainda sem previsão de estreia no Brasil, A Irmandade é integralmente falada em português. “Adoraria apresentar no nosso país, compartilhar com o lugar de onde a gente veio”, disse a diretora, emocionada após a cerimônia. O último capítulo da trilogia está previsto para 2026 e segue sendo desenvolvido com o coletivo, agora dividido entre Brasil e Europa.

Para Bianchi, a arte não deve servir como apaziguamento, mas como catalisadora de experiências transformadoras. “Adentrar a floresta escura da criação é um processo violento”, afirma, ecoando seu compromisso com uma linguagem que investiga, desorganiza e reinventa os limites do corpo e da memória.

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