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Exposição reflete legado e contemporaneidade de Andy Warhol

Redação Culturize-se

São Paulo se torna palco de um dos maiores eventos culturais do ano com a abertura da exposição Andy Warhol: Pop Art!, a mais abrangente já realizada no Brasil e na América Latina dedicada ao artista norte-americano. Realizada no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP), a mostra reúne mais de 600 obras vindas diretamente do The Andy Warhol Museum, de Pittsburgh, nos Estados Unidos. A grandiosidade do evento é fruto de três anos de negociações conduzidas pelo Instituto Totex, fundado por Paulo Bonfá e Roberto Souza Leão, e conta com o apoio de diversos patrocinadores e da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Espalhada por dois mil metros quadrados e ocupando duas grandes galerias do MAB FAAP, a exposição evidencia todas as facetas da trajetória multifacetada de Warhol — desde suas célebres serigrafias de Marilyn Monroe, Elvis Presley e as latas de sopa Campbell’s até trabalhos menos conhecidos que revelam o alcance de sua atuação em campos como moda, música, cinema, design e publicidade. “Viabilizar esta gigantesca retrospectiva é um marco para a arte e a cultura em nosso país”, afirma Paulo Bonfá. Para ele, a proposta não é apenas apresentar obras icônicas, mas também criar um espaço de descoberta. “Warhol foi um visionário que aproximou a expressão artística do grande público. Estamos entusiasmados em proporcionar essa oportunidade única para amantes dos museus e também para aqueles que terão o primeiro contato com o mundo vibrante da Pop Art.”

A curadoria da exposição é compartilhada entre Amber Morgan, diretora de coleções do museu americano, e a pesquisadora brasileira Priscyla Gomes. Morgan, que há 18 anos trabalha com o acervo de Warhol, conta que o artista nunca deixa de surpreender: “Sempre há algo novo para se aprender ou descobrir sobre Warhol”. Essa sensação de familiaridade misturada ao frescor guiou a escolha das obras expostas, que foram trazidas ao Brasil em três aviões cargueiros para garantir a segurança do valioso acervo.

A exposição está dividida em duas partes. A primeira galeria é dedicada à fase inicial do artista, quando ele começou a incorporar a cultura de massa e o consumismo como temas centrais de sua obra. Nesse espaço, o público encontra pinturas e serigrafias de celebridades, as esculturas Brillo Box — que imitam caixas de produtos cotidianos —, e exemplos de sua atuação como designer comercial. Para Priscyla Gomes, essa fase marca o caráter disruptivo do artista: “Seus retratos de celebridades mostram como a fama é construída e consumida. A técnica usada por ele, baseada na repetição e na serigrafia, reforçava essa ideia: assim como uma foto de jornal, o rosto da pessoa era replicado sem fim, até virar quase um padrão”.

Já a segunda galeria transporta o visitante para o ambiente efervescente da Factory, o famoso estúdio de Warhol em Nova York nos anos 1960, que reuniu artistas, músicos e cineastas. Aqui, o visitante se depara com exemplares da revista Interview, capas de discos — como a icônica banana do álbum de estreia da banda The Velvet Underground — e episódios de Andy Warhol’s Fifteen Minutes, programa exibido na MTV. Também estão expostas obras mais reflexivas, como a série Death and Disaster, na qual cadeiras elétricas ultracoloridas criticam o fascínio da sociedade por tragédias, e a grandiosa tela de The Last Supper, que mistura referências religiosas e logotipos corporativos.

Cultura digital

The Rolling Stones, Love You Live (1977), album cover designed by Andy Warhol, 1977 – The Andy Warhol Museum, Pittsburgh;

Além das obras já conhecidas, o público poderá conferir um conjunto de 300 fotografias feitas por Warhol com câmeras Polaroid. Essas imagens revelam o fascínio do artista pelo registro instantâneo e pela multiplicação da imagem — um comportamento que antecipa, de certa forma, o atual culto às selfies e à exposição nas redes sociais. “Somos bombardeados e seduzidos pelas imagens o tempo todo hoje em dia, vivemos em função das imagens dos meios de comunicação, mas principalmente das redes sociais”, comenta Marcos Moraes, diretor do MAB FAAP.

Ciente desse comportamento contemporâneo, a curadoria preparou espaços que dialogam com a cultura digital atual. Áreas “instagramáveis” foram estrategicamente pensadas, como o mural com papéis de parede criados nos anos 1960 e a instalação Silver Clouds, com balões de ar que flutuam como travesseiros metálicos. “No caso de uma mostra dedicada a Andy Warhol, essa dinâmica não é apenas prevista: ela é, de certa forma, parte essencial do espírito da obra”, explica Priscyla Gomes.

Para Amber Morgan, Warhol teria abraçado a era dos smartphones e das redes sociais com entusiasmo — e também com um olhar crítico. “Ele amava televisão e cinema e era fã de conversar ao telefone. Fico imaginando como ele teria reagido aos smartphones. Como ele teria adotado algo como o Instagram, onde poderia simplesmente postar foto após foto?”, diz ela em entrevista ao Estadão. “Mesmo se tivesse gostado disso, também poderíamos ter visto, da parte dele, uma reflexão sobre os impactos negativos que essas novas tecnologias causam à sociedade”.

A exposição também ressalta a influência de Warhol na arte brasileira, sobretudo entre as décadas de 1960 e 1980. Artistas como Waldemar Cordeiro, Antonio Dias, Rubens Gerchman, Wesley Duke Lee, Claudio Tozzi e Nelson Leirner incorporaram a estética da pop art para criticar tanto a cultura de massa quanto o regime militar vigente no Brasil. “A Nova Figuração traz a influência do pop estadunidense na produção brasileira, em trabalhos marcados pelo uso de cores saturadas e resgate da cultura popular”, destaca Priscyla.

Em vida, Warhol também teve uma conexão direta com o Brasil. Um dos destaques da exposição é o retrato que ele fez de Pelé para a série Athletes, celebrando o ídolo brasileiro do futebol. Essa não é a primeira vez que o público brasileiro tem acesso à obra do artista. Em 2010, a exposição Mr. America na Pinacoteca apresentou 170 obras suas, e em 2012, o MIS exibiu a mostra Superfície Polaroides, com cerca de 300 retratos instantâneos.

Para Celita Procopio de Carvalho, presidente do Conselho de Curadores da FAAP, a vinda dessa retrospectiva reafirma o papel da instituição em fomentar o pensamento crítico e ampliar o diálogo entre a arte e o público. “Celebramos mais uma grande exposição que vai movimentar o mundo das artes”, afirma. Pilar Guillon Liotti, conselheira do MAB FAAP, complementa: “As inquietações e o pensamento que Andy Warhol trouxe para as artes se desdobram em muitas frentes. Queremos que essa exposição amplie ainda mais o entendimento e a importância das artes e de suas ramificações”.

A exposição fica aberta ao público até 30 de junho e os ingressos podem ser adquiridos no site oficial.

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