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A demissexualidade como contraponto à cultura do instantâneo

Redação Culturize-se

Demissexualidade
Foto: Reprodução/Internet

A demissexualidade, uma orientação sexual caracterizada pela atração sexual que surge apenas após o estabelecimento de uma conexão emocional profunda, pode ser analisada sob as lentes da filosofia e da psicanálise, oferecendo insights sobre a natureza humana, os vínculos afetivos e a construção do desejo. Essa abordagem nos permite explorar como a demissexualidade desafia noções tradicionais de sexualidade e desejo, ao mesmo tempo em que ressoa com ideias de pensadores como Sigmund Freud, Jacques Lacan, Erich Fromm e Martin Buber.

A demissexualidade e a construção do desejo

Na psicanálise freudiana, o desejo sexual é frequentemente associado a impulsos primários e inconscientes, que podem ser direcionados para objetos variados. No entanto, Freud também reconhece a importância dos vínculos emocionais na formação do desejo, especialmente em sua teoria sobre a libido e os estágios do desenvolvimento psicossexual. A demissexualidade pode ser vista como uma manifestação desse entrelaçamento entre afeto e sexualidade, onde o desejo não é despertado por estímulos superficiais, mas sim pela construção de uma relação significativa. Essa perspectiva sugere que, para os demissexuais, o erótico está intrinsecamente ligado ao emocional, desafiando a ideia de que o desejo é puramente instintivo ou físico.

Jacques Lacan, ao expandir as ideias de Freud, introduz o conceito de “objeto a”, que representa a causa do desejo, algo que está sempre além do alcance e que nunca pode ser totalmente satisfeito. Para os demissexuais, o “objeto a” pode estar intimamente relacionado à conexão emocional, algo que não é imediatamente visível ou tangível, mas que se constrói ao longo do tempo. A demissexualidade, nesse sentido, revela como o desejo é mediado por uma busca por completude e reconhecimento no outro, algo que só pode ser alcançado através de um vínculo profundo e autêntico.

A demissexualidade e a ética do cuidado

Do ponto de vista filosófico, a demissexualidade pode ser associada à ética do cuidado, proposta por pensadores como Martin Buber e Erich Fromm. Buber, em sua obra “Eu e Tu”, fala sobre a importância das relações autênticas, onde o outro é visto não como um objeto, mas como um “Tu” com quem se estabelece um diálogo genuíno. Para os demissexuais, a atração sexual só emerge quando essa relação autêntica é estabelecida, o que ressoa com a ideia de Buber de que o verdadeiro encontro humano ocorre no espaço do diálogo e da reciprocidade.

Erich Fromm, em “A Arte de Amar”, argumenta que o amor não é apenas um sentimento, mas uma prática que requer cuidado, responsabilidade e conhecimento do outro. A demissexualidade pode ser entendida como uma expressão dessa visão, onde o desejo sexual está intrinsecamente ligado ao amor e ao cuidado. Para os demissexuais, a atração não é imediata ou superficial, mas sim algo que se constrói através do conhecimento mútuo e da confiança, refletindo uma abordagem mais profunda e ética das relações humanas.

A cantora Iza é uma das celebridades que já se assumiu demissexual | Foto: Reprodução/Instagram

A demissexualidade e a crítica à cultura do instantâneo

Em uma sociedade marcada pela cultura do instantâneo, onde o imediatismo e a superficialidade muitas vezes predominam, a demissexualidade se apresenta como uma crítica implícita a essa dinâmica. Filósofos como Byung-Chul Han, em sua análise da sociedade contemporânea, destacam como a busca por prazeres rápidos e efêmeros pode levar à alienação e à perda de profundidade nas relações humanas. A demissexualidade, ao contrário, valoriza a construção lenta e cuidadosa de vínculos, sugerindo que o verdadeiro desejo só pode florescer em um contexto de intimidade e compromisso.

A demissexualidade também levanta questões importantes sobre identidade e autoconhecimento. Na perspectiva de Michel Foucault, a sexualidade é uma construção social, moldada por discursos e práticas culturais. A demissexualidade, como uma identidade reconhecida recentemente, desafia as categorias tradicionais de orientação sexual e abre espaço para uma compreensão mais fluida e diversa do desejo. Ela nos convida a refletir sobre como as experiências individuais de atração e afeto podem transcender normas sociais e expectativas culturais, permitindo que cada pessoa se reconheça e se expresse de maneira autêntica.

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