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“O Lodo” vê na metaforização do banal um poderoso artifício investigativo

Novo filme de Helvécio Ratton leva ao cinema o conto homônimo de Murilo Rubião, marcado por uma atmosfera gótica e um toque kafkiano

Por Reinaldo Glioche

Filmes que se resolvem sobre questões de saúde mental estão se avolumando, uma contingência da pandemia, é claro, mas mesmo antes dela o tema estava em verve em produções tão díspares como “Coringa “(2019) e “Por Lugares Incríveis” (2020). O brasileiro “O Lodo”, novo longa de Helvécio Ratton, observa o peso do banal sobre o indivíduo recebendo o surrealismo sem jamais abrir mão de um registro naturalista.

Manfredo (Eduardo Moreira) é funcionário de uma empresa de seguros, que toca seu trabalho sem lá muita vontade, que começa a se sentir deprimido e busca ajuda de um psiquiatra, o Dr. Pink (Renato Parara).

Foto: Divulgação

Manfredo, todavia, não parece disposto ao rito da psicanálise e desiste do tratamento após uma consulta – o Dr. Pink havia alertado que precisava remexer o passado porque ele tinha um verdadeiro lodaçal dentro de si que irrigava seu quadro depressivo. A partir daí o elemento gótico se assenta sobre a narrativa com o psiquiatra assediando o paciente indiferente à necessidade do tratamento e sendo o esteio para uma série de acontecimento insólitos que vão minando a existência de Manfredo.

Há uma somatização física do flagelo emocional do protagonista, que é uma secreção escura que sai de seu mamilo, o lodo precisa sair por algum lugar, sacramenta o Dr. Pink, e que se intensifica à medida que ele vai sucumbindo ao mundo ao seu redor, mesmo que este não necessariamente tenha lhe ficado mais opressivo.

A oposição entre surrealismo e realismo exige da realização uma perícia tremenda para que a narrativa não seja usurpada pela forma em detrimento do conteúdo. Nesse sentido, o elenco, composto em sua maioria por atores do grupo Galpão, surgem como fiadores de Ratton. À medida que a estranheza se avoluma no registro, em especial com a entrada da irmã de Manfredo em cena, e sonhos e realidade se embaralham definitivamente, “O Lodo” assume de vez sua veia kafkiana e se resolve como um potente registro do ardil do caos mesmo em meio à atonia.

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