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“Babygirl” resgata erotismo pulp dos anos 90 enquanto mergulha na psique da mulher poderosa do século XXI

Por Reinaldo Glioche

Em um ano em que o cinema focou nas mulheres maduras se relacionando com homens mais jovens (“Uma Ideia de Você”, “Amores Solitários” e “Tudo em Família”, para citar alguns) é simbólico que “Babygirl” seja o alvissareiro – e de matizes psicanalíticas – entre eles. O longa da holandesa Halina Reijn (“Instinto” e “Morte, Morte, Morte”) observa uma mulher com tendências de submissão se engajar em uma relação extraconjugal com um homem mais jovem subordinado a ela no trabalho.

A diferença fundamental entre “Babygirl” e os filmes supracitados é que o longa de Reijn não está interessado no empoderamento feminino, tampouco nos códigos da atração, mas sim em mergulhar na psicologia da personagem defendida com o exato hibridismo de afetação e vulnerabilidade por Nicole Kidman e mensurar como suas escolhas a levam do ponto A ao B.

É bem verdade que o longa começa mais interessante do que termina. Prestes a entrar no terço final, o roteiro, também de autoria de Reijn, passa a se interessar mais pelos efeitos do caso extraconjugal na vida afetiva de Romy (Kidman) e em seu emprego – ela é CEO da empresa de automação que fundou – do que na dinâmica fetichista que sequestra toda a sua existência.

Dessa forma, o filme se resolve de maneira muito mais convencional – embora jamais burocrática – do que se emancipa enquanto uma análise febril e despudorada dos jogos de poder que apenas o sexo é capaz de revelar.

Romy parece feliz. Tem o emprego dos sonhos, um marido amoroso e filhas dedicadas. Mas ela é incapaz de gozar com seu marido (Antonio Banderas). Após transar com ele, ela assiste filmes pornográficos com temas de submissão feminina para, quem sabe, atingir o orgasmo.

A cineasta Halina Reijn e Nicole Kidman no set de “Babygirl” | Fotos: Divulgação

Quando conhece Samuel (Harris Dickinson), um dança de sugestividades se impõe. O rapaz, estagiário na empresa que ela preside, é bastante perspicaz e em uma das primeiras interações que tem com Romy dispara: “Eu acho que você gosta de ser mandada o que fazer”.  Romy reage desconcertada, mas ele acertou um nervo.

A partir desse momento, Samuel é senhor dos pensamentos – e em breve do corpo – de Romy, que evolui do embaraço com a situação para a total e absoluta entrega, capaz de alienar tudo e todos que lhe importam. É esse risco, observa Samuel em dado momento, que parece a excitar.

“Babygirl” enseja, ainda, um comentário sobre como as mulheres também podem ser canalhas na cadeia alimentar empresarial – algo não apenas moldado pelo comportamento de Romy, mas também de outra personagem feminina coadjuvante que também tem uma relação com Samuel. Eis um filme que recupera o erotismo pulp dos anos 90 enquanto problematiza teses caras aos novos tempos. São atributos que o validam como uma ótima experiência cinematográfica.

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