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Coletivo Legítima Defesa explora a negritude como ponte para futuros alternativos

Redação Culturize-se

O Coletivo Legítima Defesa apresenta sua nova produção, “Exílio: notas de um mal-estar que não passa”, no Sesc 14 Bis, de 18 de outubro a 10 de novembro. Com sessões de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 18h, o espetáculo explora a ideia de negritude como construção de futuros alternativos.

A peça, dirigida por Eugênio Lima, é uma “transcriação poética” do exílio de Abdias Nascimento (1914-2011) e sua relação com Augusto Boal (1931-2009). A dramaturgia, assinada por Lima e Claudia Schapira, baseia-se em obras dos dois autores e em materiais do Teatro Experimental do Negro (TEN).

Foto: Camila Rios

Lima destaca a conexão pouco conhecida entre Nascimento e Boal: “A peça é fundamentada na ideia de que existe uma relação entre o Abdias Nascimento e o Augusto Boal que não foi contada. Nosso principal argumento é que o início do Teatro Experimental do Negro se funde com o começo da carreira dramatúrgica do Boal, já que o primeiro texto que ele escreveu foi para o TEN”.

O diretor explica que ambos acreditavam que a “hybris trágica negra” estava no candomblé, levando Boal a escrever quatro peças ambientadas em terreiros para o TEN. Essa abordagem desafiava a noção predominante de que atores negros só podiam atuar em comédias.

A narrativa de “Exílio” segue um grupo de atores tentando montar trechos dessas peças, enfrentando um sentimento de impossibilidade diante das tragédias retratadas. O espetáculo é estruturado em quatro partes, inspiradas em obras de Eugene O’Neill, Augusto Boal e Abdias Nascimento.

Lima ressalta o conceito de autoexílio que permeia a obra: “Para Abdias, que passou 13 anos exilado nos Estados Unidos e na Nigéria, todo negro fora da África é um autoexilado, já que não tem mais nenhuma possibilidade de retorno ao seu real local de origem e sofre racismo no seu país natal”.

A encenação faz uso de metalinguagem, com a equipe técnica visível no palco e o diretor conduzindo um aparente ensaio. Seis performers negros transitam por um “tapete da memória” projetado, estabelecendo uma convenção cênica única.

O cenário inclui projeções de documentos históricos, pesquisados no IPEAFRO e no Instituto Boal. A trilha sonora, também assinada por Lima, mistura hip-hop, música clássica, e canções significativas para a cultura negra.

O figurino de Claudia Schapira evoca diferentes décadas sem seguir uma cronologia linear, enquanto a paleta de cores em preto e branco remete à estética do primeiro trabalho do grupo.

“Exílio: notas de um mal-estar que não passa” não apenas revisita momentos históricos cruciais, mas também propõe uma reflexão sobre a experiência negra contemporânea, utilizando o teatro como meio de exploração e questionamento de realidades paralelas e persistentes.

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