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A tragédia como signo familiar move o ótimo “Garra de Ferro”

Por Reinaldo Glioche

Há quem acredite em maldições e pragas e há quem não dê muita bola para ‘crendices’, mas até que ponto atribuir uma série de eventos infelizes à má sorte? Embora esse dilema não seja o epicentro de “Garra de Ferro”, novo longa de Sean Durkin, ele está lá pairando sobre o triste e hesitante protagonista, defendido com garra e esmero por Zac Efron.

O longa acompanha a saga familiar dos Von Erich, mais importante dinastia da história da luta livre nos EUA, marcada por uma série de tragédias familiares. O filme elege Kevin (Efron), o segundo dos cinco filhos de Fritz (o excelente Holt McCallany), como alicerce narrativo, mas não se limita a seu ponto de vista, fluindo por perspectivas, evitando o sensacionalismo e recebendo a indefectível melancolia que envolve a história sem alarde, mas com inclinação à inflexão.

Para isso elenca uma série de escolhas narrativas muito interessantes que favorecem certo distanciamento da audiência dos personagens. Não se trata de um olhar frio, mas há certo rigor jornalístico na abordagem, algo inusual para produções do tipo – o que talvez explique o fato do longa ter passado ao largo das principais premiações da temporada.

Garra de Ferro

A família é tudo

Holt McCallany dá vida ao patriarca que nunca teve a chance de ostentar o cinturão de campeão dos pesos-pesados do wrestling, embora tenha construído uma boa vida a partir de sua dedicação ao esporte. Ele força a mão para que seus filhos atuem todos nos esporte, de preferência no wrestling. Sua rigidez naturalmente gera desequilíbrios, aos quais o filme não se ocupa tanto, confiando em sua audiência para intuir a partir das pistas salpicadas.

O que o filme advoga é que a família pode ser tanto porto seguro como elemento de desestabilização e que essas características podem existir em paralelo não sendo necessariamente excludentes. É uma ideia forte e que ganha ainda mais viço nesse desenho da América conservadora que Durkin pincela com pequenas cenas, aparentemente desimportantes, mas que contribuem para um painel que surge tão enraizado quanto inescapável.

É o american way of life no microscópio, mas também um senso de família que ajuíza dores e amores de toda sorte. “Garra de Ferro” oferta a sua audiência personagens polivalentes, condoídos, entristecidos, perseverantes e que enxergam a família como um patrimônio sacro. Sua força e ruína deriva dessa condição. Essa constatação é a beleza silenciosa de um filme que sabe exatamente como chegar até ela.

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