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Amor e esperança dão o tom final no Festival de Cannes

Por Mariane Morisawa

Em seus últimos dias, o 76º Festival de Cannes foi todo sobre o amor e a esperança. É um sinal de que os cineastas sabem que são duas coisas de que o mundo está necessitando agora. O evento terminou na noite deste sábado (26), com a cerimônia de premiação.

Cena de “The Pot-Au-Feu” | Foto: Divulgação/Cannes

Em “The Pot-Au-Feu“, do vietnamita Hùng Tran Anh, Eugénie (Juliette Binoche) é o braço direito do chef Dodin Bouffant (Benoït Magimel), em 1885. Sem a cozinheira, ele é incapaz de criar e executar suas maravilhas. Mas Dodin também é dependente dela pessoalmente, mesmo que, apesar de ser uma mulher do século 19, ela tenha muitas reticências em oficializar a relação amorosa. Não é o melhor filme da competição, mas que delícia ver a câmera passear com agilidade pela cozinha enquanto os inúmeros e apetitosos pratos são feitos.

Outra história de amor está no coração de “La Chimera“, da italiana Alice Rohrwacher. Só que, aqui, uma das peças do relacionamento está ausente. O filme passado nos anos 1980 gira em torno dos tombaroli, os ladrões dos túmulos etruscos, povo que ocupou a Península Itálica entre 900 a.C. e 27 a.C. O maior deles é o inglês Arthur (Josh O’Connor, o Príncipe Charles da série “The Crown“), que sofre com a perda da amada Beniamina. Sua busca por tesouros enterrados tem a ver com sua procura por se reconectar com ela. Arthur tem uma boa relação com Flora (Isabella Rossellini), a frágil mãe de Beniamina. Itália (a brasileira Carol Duarte, atriz de “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão“), que está na casa para aprender canto e acaba fazendo os afazeres domésticos para Flora, encanta-se pelo melancólico Arthur. “La Chimera” é um filme de mistérios – os deixados pelos etruscos e o que move Arthur.

Ken Loach, duas vezes ganhador da Palma de Ouro, não se cansa de apontar o dedo para as mazelas da sociedade inglesa. Em “The Old Oak”, os refugiados têm sua atenção. Os sírios que chegam a uma pequena vila decadente depois do declínio das minas de carvão provocam reações racistas e preconceituosas. Mas Ballantyne (Dave Turner), dono do pub local, sente compaixão por aquelas pessoas que fogem da guerra, em especial por Yara (Ebla Mari), uma fotógrafa bastante articulada. Ele também compreende que os sírios não são os únicos a precisarem de uma mão amiga, com os próprios ingleses lutando contra o empobrecimento. O supostamente último longa-metragem do cineasta tem um roteiro às vezes piegas, mas aquece o coração com a ideia de que é possível viver de maneira diferente, em comunidade.

Enquanto isso, outro veterano, o alemão Wim Wenders, vem com uma de suas melhores obras dos últimos tempos, também abordando um modo de vida diverso. “Perfect Days” nasceu como um projeto de encomenda sobre banheiros públicos de Tóquio para se tornar um dos favoritos do festival. Hirayama (Koji Yakusho) acorda todo o dia pela manhã, antes de o sol nascer, e faz tudo sempre igual antes de ir para o trabalho, ao som de uma de suas fitas cassete. Na volta, ele mantém a rotina. Nos intervalos, aprecia os raios de sol penetrando por dentre a copa das árvores e faz fotos com sua câmera de filme. Durante boa parte do filme, ele praticamente não fala. Mas a chegada de sua sobrinha vai mudar isso. O filme é uma ode às pequenas coisas e a uma vida mais simples.

Balanço

O júri da competição oficial teve a tal da dor de cabeça boa, porque foi uma seleção forte, mas com obras de tons bastante diferentes.

Cena de “Perfect Days”, uma volta à boa forma de Wim Wenders |Foto: Divulgação/Cannes

Entre os favoritos estão dramas substanciosos como “The Zone of Interest”, de Jonathan Glazer, sobre o casal que mora ao lado de Auschwitz como se nada estivesse acontecendo, “Anatomy of a Fall”, de Justine Triet, sobre uma mulher acusada de assassinato do marido, e “About Dry Grasses“, de Nuri Bilge Ceylan, sobre um professor que revela aos poucos seus traços mais odiosos. Todos premiados!

Mas também há filmes menos pesados entre os melhores do festival como a comédia romântica “Fallen Leaves“, de Aki Kaurismäki, com o amor de duas almas solitárias, “La Chimera“, de Alice Rohrwacher, e “Perfect Days“, de Wim Wenders. A competição poderia ter passado sem o equivocado “Club Zero“, de Jessica Hausner. Mas dá para entender que a sátira cínica tem algo que se aproxima dos filmes do presidente do júri. O que não se explica é a presença de “Black Flies“, de Jean-Stéphane Sauvaire, um drama sobre paramédicos tão genérico que parece um capítulo ruim de qualquer série do tipo “Chicago Fire” ou “9-1-1″.

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