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“Blue Monday”, 40 anos: a música que salvou a Factory Records e virou o maior clássico do New Order

Tom Leão

Uma das melhores cenas da hilariante comédia de terror “Shaun of the dead” (aqui, “Todo Mundo Quase Morto”, 2004) é quando Shaun (Simon Pegg) e seu amigo Ed (Nick Frost) descobrem que, as pessoas à sua volta, estão virando zumbis. Acuados no quintal da casa, eles vão ao barraco de ferramentas e pegam uma caixa, que, por acaso, é um case de discos de vinil. Daí, começam a atirar os bolachões contra a cabeça dos zumbis, com algum sucesso em retardá-los. Ed, joga tudo sem olhar. Shaun tenta dar uma selecionada antes. Tipo: Prince, com a música-tema da trilha de ‘Batman’? Pode jogar! Sade? Sim! (‘era de minha namorada, mas…). Enya? Claro! Contudo, quando Ed lança o 12 polegadas de “Blue Monday”, do New Order, Shaun quase chora. Porque, além de um excelente disco, era a primeira edição, que, hoje, vale uma nota preta.

Foto: reprodução/Internet

  E, hoje, 20 anos depois da cena do filme, vale uma nota ainda mais preta. Nesta data querida passada de 7 de março, “Blue Monday” (o original) acabou de completar 40 anos de lançado e, até hoje, soa como novo e enche qualquer pista de dança, seja de synth/new wave retrô ou não. A princípio, foi visto como mais um desperdício da Factory Records, que andava perdendo muito dinheiro com seus artistas e produções caprichadas das capas de discos. A de “Blue Monday” (FAC73), por exemplo (feita pelo brilhante designer da gravadora, Pete Saville, que assinou tudo do New Order e Joy Division), imitava uma embalagem de floppy disc (aqueles discos flexíveis que usávamos nos computadores, para gravar dados, nos anos 80 e 90), com um furo no meio e papel da melhor qualidade. A capa, custava mais caro para ser feita, do que o lucro da venda de cada disco. Tanto que, após algum tempo, foi trocada por uma capa sem furo e com papel de qualidade inferior. O sucesso da música/disco, ajudou a sanar, temporariamente, as finanças da quase falida Factory Records, e a bancar os discos de outros artistas da gravadora.

  Ninguém esperava que “Blue Monday” alcançasse o sucesso que alcançou, vendendo mais de um milhão de cópias (só no UK) e se tornando, em poucos anos, o single mais vendido da história da música pop/rock (198 semanas nas paradas do UK!). Nenhum disco em sua categoria (single de 12 polegadas, do tamanho de um LP, mas com apenas duas músicas, como um compacto grande) vendeu mais do que ele, até hoje. E, foi a música que marcou a virada do New Order, do som eletrônico sombrio, pós-Joy Division, para o electro-techno dançante.

  A história por trás do disco/música, tem algumas curiosidades interessantes. O nome, veio de uma ilustração, num livro de Kurt Vonnegut, ‘Breakfast of the Champions’ (1973), no qual uma vaca diz ‘Goodbye, blue monday!’. Em entrevistas diversas, o baixista Peter Hook, disse que tirou a inspiração para aquele clássico riff, que marca a música, de um western-spaghetti (‘Por uns dólares a mais’, 1965, de Sergio Leone, com Clint Eastwood) que estava vendo na TV. Gostou do som, pegou seu baixo e tirou os timbres. Mas, na lista de samples usados na música (muito bem camuflados) estão: Kraftwerk (o coro robótico), Donna Summer (viradas de bateria) e Sylvester (tons de baixo). Detalhe: como quase tudo da Factory feito por Saville, o disco vinha sem nada escrito na capa. Sua arte falava por si só.  

New Order: um clássico atemporal | Foto: divulgação

De lá para cá, “Blue Monday” continua em catálogo, sendo relançado de tempos em tempos. Teve milhares de versões e remixes. Foi relançado em 1988 (remixado por Quincy Jones, como ‘Blue Monday 1988’) e 1995 (vários remix do Hardfloor), foi usada em diversos anúncios. E, até hoje, aos primeiros acordes numa festinha, seja de electro, de anos 80 ou apenas de boa música para dançar, ninguém fica parado, e a pista enche. É a música-curinga de qualquer DJ. E, embora não faça parte do tracklist original do álbum “Power, corruption e lies” (1983), ela pode ser encontrada em algumas versões em cassete e CD deste, o que já faz com que também tenham maior valor para fãs do New Order e colecionadores em geral.

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