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Fotojornalismo deve carregar a pretensão de ser arte?

Por Reinaldo Glioche

Foto: Gabriela Biló

Um dos assuntos que mais apaixonadamente mobilizaram a opinião pública nesta semana foi a foto da manchete da edição impressa do jornal Folha de São Paulo de quinta (19). A imagem, que ilustrava a chamada “No foco de Lula, presença militar no planalto é recorde” mostra Lula, entre sorriso, ajeitando a gravata atrás de uma janela com um estilhaço na altura de seu coração. 

Muitas notórias figuras de representatividade junto a opinião pública de esquerda foram as redes sociais execrar o “mau gosto” do jornal por “incitar a violência” ou “manipular a realidade” em uma “clara manifestação de pós-verdade”. 

Nomes como o da filósofa Márcia Tiburi chegaram a defender a intimação da fotógrafa, no caso Gabriela Biló, para prestar informações sobre o registro. 

O episódio é mais um a ilustrar o destempero da polarização política no país, que atropela fatos e circunstâncias em um esforço de incompreensão e enfrentamento. 

As redes sociais convulsionaram a respeito da imagem e de seus potenciais significados e Gabriela Biló viu-se na necessidade de defender seu trabalho. “Minhas fotos são o espelho do meu olhar. Essa só é a forma como eu vejo o mundo. Você pode ter o seu olhar, discordar do meu, tudo bem, o mundo é plural. Sendo assim, vou ignorar absurdos como ‘apaga isso’, entre outros hates, especialmente depois do dia 8/01”.

 Cristiano Botafogo, narrador e editor do podcast Medo e Delírio em Brasília e coautor do livro, também na praça pública do Twitter, defendeu a imagem: “Ler a conjuntura no momento é uma das artes do fotojornalismo. E, nisso, Gabriela Biló é mestra. Nessa aí, a de Lula com a trinca, também acho que ela leu bem a conjuntura no momento”. É possível ler toda a argumentação proposta aqui

Fotojornalismo é arte?


Foi Cristiano quem primeiro ensejou uma discussão muito pertinente e que irradia toda vida dessa polêmica. Fotojornalismo é arte? “Eu acho que é. É arte a foto do Figueiredo, que posava de civil, parecendo que vestia o quepe de um militar que estava atrás? Pra mim, isso é arte pra caralho. Pra mim, é arte pra caralho outra foto da Gabriela em que Bolsonaro parece atirar em Moro, este de cabeça baixa. Um símbolo da fritura do ex-ministro. Ou outra em que parecem fazer uma reverência a Arthur lira, que, através do orçamento secreto, parecia ser o governante de fato”

Esse é um ponto decisivo para este debate. Os prêmios de fotojornalismo celebram os trabalhos mais artísticos na captura da realidade. Nessa semana mesmo, o Culturize-se publicou uma lista com 11 fotografias laureadas com o Pulitzer. Em comum, todas têm seu límpido apuro estético. 

O que nos leva a um segundo ponto: fotojornalismo deve carregar essa pretensão de ser arte? Registrar os fatos já não deveria ser suficiente? É importante ter em mente que não há respostas certas ou erradas para essas perguntas. Mas há, no tempo de Figueiredo e no tempo de Lula, o bom senso ao tatear o mundo a sua volta. A arte não tem sentido fechado, ela pode ser mutável, instável e isso, por definição, representa um contraste ao bom jornalismo. Não quer dizer que sejam água e vinho, mas que é preciso saber orná-los.  

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