Redação Culturize-se
Ao completar 60 anos de existência neste mês de abril, a Rede Globo ganha uma nova e robusta biografia assinada por quem conhece a casa por dentro: o jornalista e escritor Ernesto Rodrigues. Ex-funcionário da emissora por 14 anos e com passagem por veículos como Veja e Jornal do Brasil, Rodrigues lança um ambicioso projeto de três volumes chamado simplesmente A Globo. Publicados pela Editora Autêntica, os livros jogam luz sobre os bastidores, as glórias e as crises da maior emissora do país, sem se alinhar à versão oficial nem ceder à demonização ideológica que por vezes cerca o nome Globo.
O primeiro volume da trilogia, intitulado “A Globo – Hegemonia”, cobre o período de 1965 a 1984. Nele, Rodrigues investiga o nascimento turbulento da emissora, marcada por problemas técnicos, baixa audiência e uma programação desorganizada. São descritas as estratégias adotadas por Roberto Marinho para firmar a Globo como potência midiática, incluindo o controverso acordo financeiro com o grupo americano Time-Life, que resultou numa CPI e num racha familiar dentro do império dos Marinho.
Esse primeiro livro também não foge do debate sobre o alinhamento da Globo com o regime militar. Rodrigues aborda a relação tensa e ambígua da emissora com os governos da ditadura, que ele define como de “subserviência imposta”. Exemplo disso é o caso do coronel Edgardo Erickson, que apresentava o programa Ordem do Dia, um noticiário pró-ditadura, armado e sem qualquer supervisão editorial. Episódios como esse escancaram como a Globo, embora não tenha criado a censura, colaborou de forma passiva – ou mesmo ativa – com o controle informativo do regime.
O jornalista também faz um inventário crítico da cultura organizacional da Globo nas décadas de 1970 e 1980. Ele detalha a “escola do grito”, uma conduta autoritária de diretores de teledramaturgia que impunham um ambiente opressivo, especialmente para mulheres. Walter Avancini, Daniel Filho, Luis Fernando Carvalho e outros são citados nominalmente por seus métodos de direção abusivos, apenas contidos anos depois, com a implementação de políticas de compliance a partir da década de 2010.
Já o segundo volume, “A Globo – Concorrência”, cobre os anos de 1985 a 1998. O livro, recém-lançado, mostra como a emissora navegou pela redemocratização do país, enfrentando ao mesmo tempo uma concorrência acirrada – principalmente de SBT e Manchete – e uma série de crises internas. A cobertura das Diretas Já!, por exemplo, foi marcada por omissão inicial e só ganhou corpo quando o movimento já tomava as ruas, episódio considerado um dos maiores tropeços editoriais da Globo.
Rodrigues também revisita o polêmico debate entre Lula e Fernando Collor em 1989, no qual a edição do Jornal Nacional favoreceu o candidato alagoano, com uma montagem que ressaltava seus melhores momentos e os piores de Lula. Um dos editores envolvidos confessou mais tarde: “Nunca fiz um serviço tão sujo na minha vida”. O episódio manchou a credibilidade do jornalismo da Globo, revelando como decisões políticas internas influenciaram diretamente a narrativa oferecida ao público.

Mas nem só de polêmicas se faz o segundo livro. O período tratado também foi de grandes sucessos de audiência e inovação na programação. Séries como “Grande Sertão: Veredas”, novelas como “Vale Tudo”, programas infantis como o “Xou da Xuxa” e humorísticos como “TV Pirata” e “Casseta & Planeta” consolidaram a Globo como potência de conteúdo. O então vice-presidente da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – o Boni – chegou a dizer que esse era o “auge” da Globo.
Contudo, esse auge teve um preço. O ritmo frenético de produção levou atores ao limite. Tarcísio Meira ameaçou abandonar gravações, Vera Fischer brigou com Fernanda Montenegro e houve relatos de esgotamento físico e emocional. Paralelamente, a emissora rejeitou o projeto da novela “Pantanal”, que acabou na Rede Manchete e se tornou um fenômeno de audiência, provando que a hegemonia da Globo não era inabalável.
Outro ponto crítico analisado por Rodrigues é a tentativa frustrada da Globo de se expandir para o mercado italiano, nos anos 1980. Roberto Marinho investiu na TV Montecarlo, mas a falta de preparo da equipe e as pressões políticas locais levaram ao fracasso retumbante do projeto. Até hoje, os filhos de Marinho e Boni trocam acusações sobre a responsabilidade pelo fiasco.
Além do minucioso trabalho jornalístico e da vasta bibliografia, Ernesto Rodrigues teve acesso irrestrito ao acervo do Memória Globo, que reúne mais de 400 depoimentos inéditos de profissionais da emissora. Também realizou 60 entrevistas com nomes como Walter Clark, Boni e os três filhos de Roberto Marinho. O acesso, garantido por contrato, foi feito com a promessa de total autonomia editorial, sem vetos ou revisões por parte do Grupo Globo.
A terceira parte da trilogia, intitulada “A Globo – Metamorfose”, ainda não tem data de lançamento, mas abordará o período de 1999 a 2020. Será um mergulho na era digital e nas mudanças na programação da emissora, quando a internet, o streaming e a descentralização do consumo de mídia abalaram o monopólio da televisão aberta.

Ao longo de quase duas mil páginas, Ernesto Rodrigues não entrega uma narrativa única ou definitiva sobre a Globo. Pelo contrário, seu objetivo é complexo: oferecer uma história plural, recheada de contradições, disputas de poder, sucessos estrondosos e erros colossais. “Não estou em busca de mocinhos e bandidos”, disse em entrevista ao Estado de Minas. “Que as pessoas se reencontrem com a Globo verdadeira, que mexeu com a vida de todos nós, queiramos ou não, ao longo de seis décadas.”
“A Globo” é também um espelho da história recente do Brasil. Em seus corredores ecoam debates sobre ética jornalística, censura, cultura de celebridades, política e entretenimento. E o maior mérito do autor talvez seja justamente esse: recusar a simplificação, oferecendo ao leitor uma obra que convida à reflexão crítica sobre o poder da televisão e sua influência sobre a sociedade brasileira.