Por Patrícia Dantas, de Londres
Em entrevista exclusiva ao ‘Culturize-se’ durante o Festival de Cinema de Londres, Gabe Klinger comentou sobre o atual cenário político brasileiro
Estrelado por Marina Person, “Isabel” teve sua estreia no Reino Unido durante a 70ª edição do Festival de Cinema de Londres no último fim de semana. O filme, dirigido por Gabe Klinger, conta a história de uma sommelier em São Paulo que tenta abrir o próprio bar de vinhos.
Em entrevista exclusiva ao Culturize-se, o diretor, conhecido pelo drama americano “Porto” (2016), comentou sobre o atual cenário político nacional e a falta de novos líderes para disputar as eleições.
“É nosso maior problema, né? Não sei qual é a solução, obviamente. Sei que vai ser muito ruim para a cultura se a direita for eleita novamente no Brasil, por causa do que eles priorizam e privilegiam. Parece que o objetivo é privar as pessoas de informação e criar desinformação, em vez de promover um discurso mais democrático, acessível e transparente”, afirmou.
Demonstrando preocupação e incerteza sobre o futuro do país, Klinger continuou: “Digo, a esquerda no Brasil também tem seus problemas e acho que, estrategicamente, eles poderiam agir melhor. Nosso candidato de esquerda tem 80 anos. Ele representa uma geração mais antiga; estamos buscando sangue novo, certo? Alguém como o [Zohran] Mamdani, em Nova York (risos). Não temos ninguém assim, sabe? Acho que precisamos de coerência e consistência. Infelizmente, não estou otimista. É um momento sombrio para nós, culturalmente falando, mas temos que continuar encontrando caminhos, continuar persistindo.”

Gabe ainda comentou que tem sido bastante questionado em Londres se vai continuar a morar no Brasil caso as eleições levem a cultura para um caminho mais sombrio.
“Com certeza vou continuar a luta por lá. Vamos continuar lutando e tentando fazer filmes lá. Não vamos abandonar o barco”, acrescentou.
Fracasso x sucesso
No bate-papo, Gabe também explicou por que explora o fracasso da protagonista de “Isabel” em sua tentativa de abrir um empreendimento comercial, que não sai como o esperado.
“Todos nós enfrentamos isso, mas ainda acho que a maioria dos filmes romantiza o fracasso. É algo pelo qual todos passamos, certo? Pode ser algo que desperta gatilhos, mas também é catártico, ao mesmo tempo. E acho que, nessa mesma linha, quando fizemos ‘Isabel’, a ideia era fazer com que a derrota e o sucesso caminhassem em paralelo”, disse o diretor.
“Por isso eu bati o pé. Disse: ‘Não, quer saber? Dane-se. Vamos fazer um filme em que essa mulher enfrenta tudo isso, sem tentar romantizar com uma mensagem de empoderamento feminino para o público.’ Projetamos muito sucesso e felicidade nas redes sociais e, enquanto isso, na vida real, podemos estar infelizes, sabe? E é bom ter um filme que rompe com isso”, justificou.
Otimismo em meio à tragédia
Apesar do fracasso da personagem em abrir seu tão sonhado bar de vinhos, Gabe acredita que ainda há esperança e motivos para festejar, assim como na política.
“Acho que, talvez nesta conversa de hoje, eu tenha sido um pouco realista demais no meu pessimismo sobre o mundo e as coisas que estão acontecendo agora. Mas, na verdade, sou uma pessoa muito otimista e acho que o final de ‘Isabel’ — apesar de talvez ser um fracasso — transmite otimismo. Sinto otimismo no desfecho de ‘Isabel’ porque, para mim, trata-se de resiliência. E acho que é isso que todos nós precisamos fazer agora. Precisamos simplesmente… [fazer uma festa na rua]. Temos que fazer uma festa em meio à tragédia.”
Rodado em película de 16 mm, “Isabel” também conta com Caio Horowicz e John Ortiz no elenco, além de ter Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”, entre os créditos. Depois de passar pelo circuito de festivais internacionais, o longa-metragem será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que começa nesta semana. Com distribuição da O2 Play, o filme ainda não tem data prevista para chegar ao circuito comercial brasileiro.

