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Richard Linklater e a arte de capturar o tempo

Por Reinaldo Glioche

Richard Linklater consolidou-se como um dos cineastas mais singulares da geração surgida nos anos 1990, cultivando uma filmografia que transforma o cotidiano em dramaturgia e eleva o gesto simples ao nível da poesia cinematográfica. Desde Slacker (1990), seu retrato caleidoscópico da juventude texana, o diretor se mostrou um artista interessado menos em grandes estruturas narrativas e mais em personagens, tempo e conversas. Ao longo de mais de três décadas, refinou essa lógica até convertê-la em estilo autoral reconhecível.

A notoriedade internacional veio com “Antes do Amanhecer “(1995), primeiro capítulo da trilogia protagonizada por Ethan Hawke e Julie Delpy. O filme capturou a urgência emocional da juventude, inaugurando uma colaboração criativa que se estenderia pelas décadas seguintes. “Antes do Pôr-do-Sol” (2004) e “Antes da Meia-Noite” (2013) aprofundaram essa relação, acompanhando os personagens Jesse e Céline ao longo do tempo real — um recurso que se tornaria marca de Linklater. A parceria com Hawke transcendeu a trilogia, passando por projetos como “Tape” (2001) e culminando em Boyhood (2014), filmado ao longo de 12 anos com o mesmo elenco, obra-prima sobre crescimento, memória e impermanência que rendeu ao diretor o Globo de Ouro de Melhor Diretor.

Aos 65 anos, Linklater retorna ao Globo de Ouro com os dois que lançou em 2025. Sinal de que sua prolificidade não interfere na qualidade de seu trabalho. “Blue Moon”, novamente ao lado de Ethan Hawke, retoma a sensibilidade intimista do diretor, enquanto “Nouvelle Vague” marca seu mergulho mais explícito na cinefilia francesa. Juntos, os longas indicados na categoria de Melhor Filme em Comédia ou Musical, funcionam como díptico complementar: um contempla o crepúsculo de um artista; o outro celebra o nascimento de uma revolução estética.

O epitáfio de um gênio esquecido

Em “Blue Moon”, Linklater condensa toda a vida do letrista Lorenz Hart em uma única noite. É 31 de março de 1943, quando o lendário autor — responsável pela canção-título — se vê sozinho em um bar, afogado entre memórias, ressentimentos e copos de uísque, enquanto seu antigo parceiro, Richard Rodgers (Andrew Scott), celebra a estreia triunfal de seu musical revolucionário, “Oklahoma!”.

Foto: Divulgação

Ethan Hawke, colaborador de longa data de Linklater, oferece uma das atuações mais devastadoras de sua carreira. Ele conduz o filme com um desempenho simultaneamente exuberante e contido. No início, Hart parece expansivo, espirituoso, ainda dono de certo brilho; mas, aos poucos, o filme lhe retira as máscaras, revelando a exaustão e a tristeza que o corroem. Seu corpo parece encolher à medida que a noite avança; sua fala, antes vibrante, se quebra em hesitação diante das verdades que emergem. O ator, também indicado ao Globo de Ouro e um dos favoritos ao Oscar, corporifica um homem que se esconde atrás da ironia e da inteligência — um artista que já foi brilhante, mas agora vive à sombra de sua própria glória.

A mise-en-scène teatral concentra o olhar sobre o ator, transformando cada pausa, cada olhar e cada silêncio em fragmentos de uma alma à deriva. A câmera de Linklater observa Hart com uma piedade contida, permitindo que o público sinta o peso do tempo — e da derrota — em cada gesto. A fotografia evoca uma Nova York nostálgica, enquanto os enquadramentos frequentemente isolam Hart no quadro, diminuindo-o visualmente. É um trabalho minucioso de câmera e figurino que faz de Hawke um homem fisicamente menor, ecoando a fragilidade do verdadeiro Lorenz Hart, que era baixo, franzino, tragicamente vulnerável.

O tom do filme oscila com precisão entre o humor e a melancolia. Há ironia em ver um homem que escreveu letras sobre amor e esperança incapaz de amar a si mesmo ou de acreditar em qualquer futuro. Mas há também ternura no modo como Linklater o enxerga; com a compreensão de quem reconhece a beleza trágica de um artista confrontando a própria ruína.

“Blue Moon” é mais que mera referência musical: é o reflexo da própria trajetória de Lorenz Hart. A canção simboliza tanto o auge quanto a ruína, funcionando como espelho de um homem que escreveu versos eternos sobre o amor, mas morreu incapaz de vivê-lo plenamente. Linklater transforma esse título em epitáfio poético.

A faísca de uma revolução

Foto: Divulgação

Se “Blue Moon” observa o fim de uma era, “Nouvelle Vague” testemunha um início. Em vez de se debruçar somente sobre o filme “Acossado” (1960) de Jean-Luc Godard como documento, Linklater escolhe a vertigem do momento histórico. Ele não reconstrói simplesmente o nascimento do famoso movimento artístico francês — ele tenta sentir, com a intimidade de quem abre um diário antigo, como era existir dentro daquele momento em que o cinema acreditava que podia romper todas as paredes e paradigmas.

Filmado em preto e branco e no formato 4:3, o longa não apenas reproduz o passado; ele o reencena como se o vivêssemos hoje como presente. A luz parece emanada diretamente das ruas de Paris, as sombras carregam aquela teatralidade acidental típica dos filmes dos anos 1950 e 1960, e a textura granulada devolve ao cinema uma espécie de eternidade.

A primeira força do filme está nas figuras que povoam a tela. O jovem ator francês Guillaume Marbeck interpreta Jean-Luc Godard com a dose certa de oscilação entre arrogância e vulnerabilidade. A atriz norte-americana Zoey Deutch encarna Jean Seberg e se torna o centro magnético de um caos organizado. Vemos nela uma luminosidade que não tenta copiar a de Seberg, mas traduzir sua fragilidade. Deutch não interpreta Seberg — ela interpreta alguém sendo observada enquanto tenta existir. Aubry Dullin, como Jean-Paul Belmondo, consegue encarnar aquele tipo de charme despretensioso e natural, andando pelos corredores, experimentando poses ou brincando com o cigarro como quem brinca com a própria imagem.

O filme ganha fôlego quando abre espaço para a galeria de artistas que orbitavam a cena parisiense dos anos 1960. Truffaut, Varda, Rohmer, Chabrol, Cocteau: todos surgem como aparições. Linklater os filma com uma reverência quase ritual, deixando seus nomes surgirem na tela como constelações. No fundo, “Nouvelle Vague” entende que aqueles jovens cineastas viviam a ilusão — e o privilégio — de acreditar que suas conversas sobre crítica, forma e rebeldia definiriam o cinema moderno. E, ironicamente, definiram.

O que poderia facilmente ser pedante se transforma, nas mãos de Linklater, em linguagem natural. As referências não são placas informativas, são maneiras pelas quais o filme respira.

Foto: Reprodução/The Guardian

O tempo como matéria-prima

O contraponto entre a energia rebelde da juventude de “Nouvelle Vague”, com o que sobra quando não há mais aplausos, força motriz de “Blue Moon”, enriquece não apenas o 2025 de Linklater, mas sua própria filmografia no contexto histórico.

Seja observando a juventude que se forma, casais que amadurecem ou artistas que buscam sentido, o cinema de Linklater insiste na pergunta fundamental: como vivemos, e como o tempo nos modifica? Os filmes que apresentou em 2025 revelam que essa investigação permanece tão vibrante quanto no início de sua carreira.

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