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O riso como catarse: Claudia Raia encara o tabu da menopausa em comédia musical afiada

Redação Culturize-se

Por trás do riso fácil e do formato popular, “Cenas da Menopausa” propõe, com astúcia e inteligência cênica, um enfrentamento direto com um dos grandes silêncios da vida da mulher: o climatério. Sob a direção de Jarbas Homem de Mello e com texto de Anna Toledo, o espetáculo é uma comédia musical de esquetes que encontra no palco – e no corpo cênico de Claudia Raia – não apenas seu trunfo, mas também sua espinha dorsal dramatúrgica e simbólica.

Montada no Teatro Claro MAIS SP, com sessões esgotadas e temporada recém-prorrogada até o fim de agosto, a peça vem reafirmando o sucesso de sua temporada em Portugal. Mas há algo que vai além da bilheteria: a peça encontra, com rara eficácia, uma forma de transformar tabu em partilha, constrangimento em comicidade e dor em empoderamento.

O riso como chave

Anna Toledo constrói um texto ágil, direto e acessível. Longe de qualquer hermetismo, a dramaturgia se organiza em torno das chamadas “fases do luto ovariano” – uma estrutura inspirada no modelo de Elisabeth Kübler-Ross, adaptada aqui à vivência hormonal e emocional de Teresa (Raia), corretora de imóveis, mãe de dois, casada e multitarefa até a exaustão. A personagem é o fio condutor que costura as cenas, mas se desdobra em outras figuras, permitindo a Raia transitar por diferentes arquétipos femininos com precisão, carisma e domínio de palco.

É aí que o espetáculo revela seu alcance: ao construir uma galeria de mulheres 50+ que não são reduzidas a caricaturas, ainda que se sirvam de estereótipos como ponto de partida. Laurinha, Gilda e Isabel – outras personas vividas por Raia – surgem como variações de um mesmo dilema: como envelhecer com dignidade em uma cultura que insiste em associar juventude à validade existencial?

Ao lado de Raia, Jarbas Homem de Mello – além de diretor – é ator-coringa: interpreta maridos, médicos, místicos, freiras, cabeleireiros e, num aceno à paródia pop, até Madonna. Seu trabalho é versátil e espirituoso, amparando Raia com exatidão nos momentos em que a comédia se aproxima do cabaré e do sketch televisivo. A direção que imprime ao espetáculo favorece o dinamismo, criando uma espécie de revue cênica que bebe do musical, do stand-up e da performance.

O repertório musical é peça central do dispositivo cênico. Transformando clássicos dos anos 80 e 90 em paródias que funcionam como comentários das cenas – ou vinhetas que deslocam o drama para o absurdo – o espetáculo agrega camadas de ironia e identificação. Faixas como “Like a Virgin”, “Total Eclipse of the Heart” e “I Will Survive” são ressignificadas com comicidade e franqueza, provocando o público a rir do que normalmente se esconde.

Foto: Divulgação

Essa relação entre música e texto é também um gesto de afirmação: são canções originalmente associadas a divas, interpretadas agora sob a ótica do envelhecimento. O que antes era símbolo de juventude e poder é apropriado como matéria para rir das próprias perdas e transformações.

Um teatro que escuta

Mas “Cenas da Menopausa” não se encerra no riso. Ao final de cada sessão, um bate-papo com o público se impõe como rito. É nesse momento que o teatro revela sua face mais política: mulheres se reconhecem na cena, desabafam, perguntam, escutam umas às outras – e aos poucos transformam o espaço teatral em um fórum de acolhimento. É teatro que escuta, e não apenas que fala. E é aqui que reside o verdadeiro serviço prestado pela peça: abrir espaço para uma escuta rara no cotidiano, atravessada pela arte e pela empatia.

Claudia Raia, com sua habitual presença cênica e precisão gestual, encontra nesse projeto uma síntese entre espetáculo e missão. A atriz, já acostumada aos palcos de musicais e comédias, assume agora uma tarefa que vai além da entrega artística: ela conduz uma narrativa de transformação, representando um corpo em mutação, mas também uma mulher em resistência.

É significativo que tantos homens estejam presentes na plateia. Mais do que um espetáculo “para mulheres”, “Cenas da Menopausa” revela-se um exercício de educação sensível, de escuta intergeracional e de partilha entre gêneros. Se provoca riso, é porque antes cutuca; se emociona, é porque parte do real.

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