Por Reinaldo Glioche
Uma das grandes surpresas do ano, “Os Donos do Oeste” tem sido pouco comentada no Brasil, provavelmente porque está disponível em uma plataforma ainda pouco difundida por aqui, o MGM+, acessível pelo Prime Video Channels da Amazon. É uma pena, porque a série encontra uma maneira bastante eficiente de revisitar um território conhecido da televisão: o crime organizado de Nova York. Ambientada no início dos anos 1980, a produção acompanha os Westies, a violenta organização irlandesa que dominava a região de Hell’s Kitchen, e sua relação conflituosa com a poderosa máfia italiana, particularmente os Gambino. A construção do Jacob K. Javits Convention Center, uma gigantesca obra no território dos Westies, funciona como catalisador dessa disputa, transformando o canteiro de obras em uma espécie de mina de ouro para extorsão, sindicatos e corrupção.
A série chama atenção desde o início pela qualidade do texto e pela construção dos personagens. Existe, inclusive, um inegável ar de “Os Sopranos”. Não apenas porque “The Westies” reúne atores que já circularam por esse universo televisivo, mas principalmente porque a dinâmica entre os personagens guarda semelhanças importantes com a série da HBO. Mais do que simplesmente retratar organizações criminosas, as duas produções estão interessadas na ideia de família, de vínculos pessoais e de grupos de indivíduos que entram no crime organizado e passam a enxergar aquelas relações de lealdade, amizade e pertencimento como parte de sua própria identidade.
A diferença é que “Os Donos do Oeste” olha para esse universo a partir de uma escala mais territorial. Estamos em Hell’s Kitchen, em uma Nova York ainda muito diferente da cidade que viria a se transformar nas décadas seguintes. Os Westies são uma organização relativamente pequena diante das grandes famílias italianas, mas possuem uma reputação de violência que lhes permite negociar em condições muito mais favoráveis do que seu tamanho faria supor. A série acompanha justamente esse equilíbrio precário: os irlandeses querem preservar seu território, enquanto os italianos percebem que aquela região e, sobretudo, a construção do Javits Center representam uma oportunidade financeira extraordinária.

No centro dessa engrenagem está Eamon Sweeney, interpretado por J.K. Simmons, um daqueles atores que sobejam em qualquer papel que se prestem a fazer. Sweeney é o líder dos Westies e tenta exercer uma espécie de autoridade pragmática sobre homens que nem sempre parecem dispostos a obedecer. A grande questão para ele é justamente administrar uma organização que precisa ser suficientemente violenta para sobreviver, mas suficientemente disciplinada para não provocar uma guerra que seria incapaz de vencer.
A relação com os italianos passa especialmente pela família Gambino e por John Gotti, interpretado por Hamish Allan-Headley. A convivência entre os dois grupos é sustentada por uma trégua que tem muito menos de amizade do que de interesse econômico. Todos sabem que podem ganhar dinheiro se trabalharem juntos, mas todos também sabem que qualquer demonstração de fraqueza pode alterar completamente o equilíbrio de forças.
E essa trégua, naturalmente, não é duradoura.
Movimentações de ambos os lados começam a minar o acordo. A entrada dos italianos no tráfico de drogas, especialmente na cocaína, cria novas tensões dentro da própria estrutura mafiosa, enquanto os irlandeses também passam a se aproximar desse mercado. O problema, portanto, deixa de ser apenas territorial. É uma disputa por negócios, dinheiro, influência e, em última instância, pelo direito de decidir quem manda em Hell’s Kitchen.
É nesse ambiente que a série apresenta uma galeria de personagens que ajuda a ampliar o conflito. Jimmy Roarke, vivido por Tom Brittney, é um dos homens de confiança de Sweeney e funciona como uma espécie de intermediário entre o chefe e uma geração mais jovem e mais impulsiva. Seu melhor amigo, Mickey Flanagan, interpretado por Stanley Morgan, é um veterano da Guerra do Vietnã que acaba de sair de Bellevue e representa justamente esse componente mais instável da organização.
Há também Bridget Walsh, interpretada por Sarah Bolger, Brendan Cahill, vivido por Allen Leech, e personagens como Birdie Polk, interpretada por Jessica Frances Dukes. São figuras que ajudam a fazer com que a série não seja simplesmente uma sucessão de negociações entre chefes mafiosos. Há relações afetivas, amizades, romances, ressentimentos e vínculos de lealdade que dão alguma espessura humana ao cotidiano desses criminosos.
Outro personagem importante é Glenn Keenan, vivido por Titus Welliver. E aqui “Os Donos do Oeste” encontra uma de suas relações mais interessantes. Keenan é policial e possui vínculos anteriores com aquele universo, o que coloca o personagem em uma zona moral bastante mais ambígua. Welliver, conhecido sobretudo por “Bosch”, encontra novamente um personagem ligado à polícia, mas desta vez em um ambiente muito mais contaminado pela corrupção, pela lealdade pessoal e pelos interesses que atravessam a cidade.
Essa dimensão policial é importante porque “Os Donos do Oeste” não se limita à disputa entre irlandeses e italianos. A série também mostra os esforços do FBI para investigar e desmontar as estruturas do crime organizado. E é justamente aí que a produção amplia seu retrato da Nova York dos anos 1980: a máfia não existe isoladamente, mas em relação permanente com políticos, policiais, sindicatos, empresários e agentes federais.
A série também incorpora elementos ligados ao IRA, o grupo revolucionário irlandês que atua contra o Reino Unido. Essa dimensão acrescenta uma camada política ao universo dos personagens irlandeses e ajuda a mostrar que identidade e pertencimento não são necessariamente questões separadas do crime organizado. Há jovens que enxergam aquela camaradagem, aquela comunidade e aquela violência como extensões de uma identidade irlandesa que ultrapassa as fronteiras da própria Nova York.
Mas talvez seja importante estabelecer uma diferença fundamental entre “Os Donos do Oeste” e “Os Sopranos”. A nova série não está particularmente interessada em ser um drama existencial.
Enquanto “Os Sopranos” utiliza a máfia como porta de entrada para discutir depressão, família, identidade, masculinidade, culpa e uma série de outros conflitos internos, “Os Donos do Oeste” olha muito mais para a dinâmica das ruas. A série se interessa pela corrupção policial, pelos esforços do FBI, pelas disputas territoriais, pelos negócios clandestinos e pelas relações de poder entre organizações criminosas.

É, portanto, um olhar diferente sobre o mesmo universo.
Não que “Os Donos do Oeste” seja desprovida de juízos morais, mas ela é relativamente desinteressada em conflitos existenciais. Seus personagens não são utilizados prioritariamente para uma investigação sobre a natureza humana. São os conflitos terrenos, mundanos, concretos — dinheiro, território, drogas, lealdade, violência e sobrevivência — que interessam à produção.
E existe valor nessa opção. “Os Donos do Oeste” entende que pode explorar esse universo sem necessariamente mergulhar nas profundezas do ser humano. Em vez de transformar cada criminoso em um estudo psicológico, a série prefere observar como essas pessoas operam dentro de uma estrutura de poder.
Isso não significa que os personagens sejam desprovidos de complexidade. Pelo contrário. A complexidade nasce justamente das relações. Sweeney precisa controlar seus homens; Roarke precisa administrar Mickey; os jovens precisam aprender a respeitar uma velha guarda que já não parece necessariamente adequada para o mundo que está surgindo; e Keenan precisa circular entre o trabalho policial e as relações que estabeleceu naquele bairro. A série encontra seu drama menos na introspecção do que na colisão entre esses interesses.
Criada por Chris Brancato e Michael Panes, a série se beneficia ainda da experiência de Brancato em dramas criminais como “Narcos” e “Godfather of Harlem”. O resultado é uma produção que conhece os códigos do gênero e não precisa perder tempo explicando ao espectador como funciona esse universo.
No fim das contas, “Os Donos do Oeste” se prova um entretenimento muito feliz e convidativo para quem gosta de tramas inteligentes, personagens interessantes e histórias de crime organizado, mas não necessariamente procura uma experiência existencialmente devastadora.
É uma série sobre mafiosos que prefere olhar para o que eles fazem a perguntar, o tempo inteiro, quem eles são. E essa escolha, longe de ser uma limitação, é uma das razões pelas quais “Os Donos do Oeste” funciona tão bem.