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O viajante 60+ e o mercado que ainda não o alcança

Redação Culturize-se

O envelhecimento acelerado da população brasileira já produz efeitos concretos em setores estratégicos da economia, mas o turismo ainda opera em descompasso com um de seus públicos mais relevantes. É o que revela a pesquisa inédita “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60”, realizada pela consultoria data8 em parceria com o Expo Fórum de Turismo 60+ e com apoio do Ministério do Turismo. O levantamento ouviu 1.012 brasileiros com mais de 60 anos em todas as regiões do país e expõe um cenário de alta atividade econômica, autonomia financeira e, ao mesmo tempo, frustração com a oferta de serviços.

O dado mais emblemático é a percepção de inadequação: 74% dos entrevistados afirmam não sentir que as experiências de viagem são pensadas para sua faixa etária. O índice revela uma lacuna entre um público altamente ativo e um setor que ainda não incorporou plenamente as transformações demográficas em curso.

Na prática, os números mostram um consumidor maduro com forte participação no mercado turístico. Cerca de 96% dos entrevistados são responsáveis por arcar integralmente ou dividir os custos das viagens com o cônjuge, e 67% afirmam pagar sozinhos suas despesas. O uso do crédito parcelado é predominante, citado por 73% dos respondentes, reforçando a presença constante desse público no consumo de serviços de turismo.

A frequência também chama atenção: 52% realizam ao menos três viagens por ano, e 34% gastam mais de R$ 10 mil anuais com turismo. Viajar, aliás, aparece como prioridade para 42% dos brasileiros com mais de 50 anos e é associado por 61% deles à preservação da autonomia e à busca por novas experiências.

O perfil das viagens é majoritariamente acompanhado, com 56% viajando com cônjuges. Ainda assim, há nuances importantes: entre os maiores de 70 anos, 19% viajam sozinhos. As diferenças de gênero também se destacam. Mulheres apresentam maior diversidade de formatos — incluindo viagens solo, com amigos ou familiares — enquanto entre os homens predomina o modelo de casal.

Foto: Freepik

A digitalização é outro traço marcante desse público. 70% organizam viagens online, 64% usam aplicativos de pesquisa de destinos e 25% já recorrem a ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT. Apesar disso, 26% relatam experiências negativas ligadas ao atendimento, enquanto 32% apontam dificuldades com sistemas automatizados sem suporte humano.

Para especialistas envolvidos no estudo, o cenário exige mudança estrutural. “O setor precisa reconhecer o consumidor prateado como vetor estratégico de crescimento”, afirma Cléa Klouri, uma das coordenadoras da pesquisa, destacando que não se trata apenas de adaptação, mas de reposicionamento de mercado.

Como desdobramento do estudo, foi criado o Selo Destino 60+, certificação que avalia critérios como acessibilidade, hospitalidade, mobilidade, programação cultural e bem-estar. A proposta é incentivar uma nova lógica no turismo, mais inclusiva e alinhada às expectativas de um público que combina autonomia financeira, digitalização e alta demanda por experiências qualificadas.

Em um país onde a população com mais de 50 anos já soma 61 milhões de pessoas e movimenta trilhões na economia, o turismo 60+ deixa de ser nicho para se consolidar como um dos eixos centrais do futuro do setor.

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