Reinaldo Glioche
Há algo de profundamente coerente no fato de Michael Haneke ter se aposentado sem anunciar nada. Nenhuma coletiva, nenhum comunicado grandiloquente, nenhuma declaração de despedida. A notícia chegou de forma indireta, quase discreta, pela boca de Markus Schleinzer — ex-assistente de elenco do cineasta austríaco e hoje diretor — durante uma entrevista sobre seu filme “Rose”. Haneke, aos 85 anos, parou de fazer cinema. E parece estar, segundo quem o conhece bem, genuinamente em paz com isso.
Para um autor cuja obra sempre se recusou a oferecer conforto ao espectador, há algo quase irônico nessa saída silenciosa. Este é, afinal, o cineasta que construiu carreira desmontando as certezas morais e estéticas do público — de “Funny Games”, que humilha deliberadamente quem assiste por buscar entretenimento na violência, a “Caché”, que transforma a culpa colonial francesa em um enigma sem solução plantado no meio da sala de estar burguesa. Não seria de se estranhar se Haneke tivesse decidido sair de cena com um gesto de provocação. Em vez disso, ele escolheu o gesto oposto: recolher-se, cozinhar para os amigos, aplaudir o trabalho de um discípulo.
E é justamente nesse gesto que reside a chave de leitura mais interessante sobre seu retiro. Segundo Schleinzer, Haneke fez suas dez obras “como seu ídolo de sempre, Robert Bresson” — uma comparação reveladora. Bresson, o cineasta francês do rigor absoluto, também encerrou sua filmografia em um número redondo e deliberado, como quem entende o cinema não como carreira, mas como um corpo de trabalho finito, quase um tratado. Haneke sempre operou dessa forma: cada filme como uma tese sobre a mediação, a violência e a hipocrisia contemporânea, do horror doméstico de “A Professora de Piano” à devastação silenciosa de “Amor”. Faz sentido que ele visse os limites de sua própria obra com a mesma precisão cirúrgica com que sempre observou os limites morais de seus personagens.

Vale notar que sua despedida oficial ao público, “Happy End” (2017), talvez só se revele em toda sua inteligência agora, com a distância de quase uma década. Na época, o filme dividiu a crítica por sua estranha leveza — um humor negro pouco usual num autor conhecido pelo tom sombrio e impassível. Relido hoje, porém, “Happy End” ganha contornos de testamento consciente: um filme profundamente autorreferente, quase uma paródia dos próprios temas de Haneke, como se o diretor estivesse, deliberadamente, encerrando o ciclo com um sorriso irônico em vez de um grito. Dificilmente haveria ponto final mais apropriado.
Sua ausência recente também carrega uma nota de melancolia produtiva: o projeto abandonado “Kelvin’s Book”, minissérie em inglês que chegou a ser majoritariamente financiada com recursos do próprio cineasta, mas que sucumbiu aos atrasos da pandemia. É difícil não lamentar essa obra perdida — ainda mais vindo de um diretor que, em entrevista concedida em 2017, descreveu as redes sociais como uma “corrente maquiavélica de horror”, frase que soa hoje ainda mais precisa do que na época em que foi dita.
Mas talvez o mais notável seja constatar o quanto sua influência segue viva, mesmo sem novos filmes. O cinema contemporâneo continua repleto de ecos do seu estilo austero, dessa distância calculada entre câmera e personagem que nunca deixa o espectador confortável, sempre lembrando-o, com uma leve ironia por baixo da superfície sombria, de que aquilo que ele assiste é, antes de tudo, uma construção. Haneke pode ter se aposentado do ato de filmar. Da conversa que sua obra trava com o cinema que vem depois dele, no entanto, ele nunca vai sair.