Redação Culturize-se
Publicado em 1902, “Os Sertões” nunca coube inteiro em nenhuma tela ou palco. Reportagem, ensaio geográfico, estudo sociológico e crônica de guerra, o livro de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos (1896-1897) sempre resistiu ao roteiro. Mais de um século depois, um novo filme tenta a proeza: “Selvajaria”, do cineasta português Miguel Gomes, já está em produção na própria Canudos, no sertão da Bahia.
O longa é uma coprodução entre Portugal, Brasil, França, Itália e Holanda, conduzida pelas produtoras brasileiras Matizar Filmes e Bubbles Project. A distribuição no Brasil ficará com a Vitrine Filmes. O roteiro é assinado por Gomes em parceria com Maureen Fazendeiro, Mariana Ricardo e Telmo Churro. A rodagem começou em Portugal, em fevereiro deste ano, e a maior parte das filmagens acontece no Brasil desde agosto. O orçamento supera os 6 milhões de euros. Ainda não há data de estreia.
O filme retrata o conflito entre o Exército e os camponeses liderados por Antônio Conselheiro, como o livro. A proposta, porém, é menos a reconstituição histórica e mais um encontro entre a obra e o território. A produção envolve a população local ao máximo, e Grace Passô, na voz da narradora, é a única atriz profissional. “Vamos universalizar o mundo de ‘Os Sertões’, mas reitero também meu compromisso de me manter fiel a Canudos e à sua população”, diz Gomes. A ideia, segundo ele, é chegar a um filme sobre literatura, um retrato de comunidade e um “modesto tratado sobre o comportamento humano”.
O projeto tem história longa. Gomes o anunciou em 2019, quando disse que a polarização crescente no mundo tornava a guerra de Canudos atual. Ele o apresentou ao Festival de Locarno em 2020, mas a pandemia adiou as filmagens. A retomada acontece depois de o diretor vencer o prêmio de melhor direção em Cannes por “Grand Tour” (2024).

A chegada de “Selvajaria” torna mais evidente a raridade de adaptações de “Os Sertões”. A mais ambiciosa até hoje veio do teatro. Entre 2002 e 2007, o Teatro Oficina, sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa, montou a obra em cinco partes: “A Terra”, “O Homem I e II” e “A Luta I e II”. O processo consumiu sete anos e depois se desdobrou em cinema. Cinco diretores registraram as partes com onze câmeras móveis durante as apresentações. O resultado, “Os Sertões – os filmes”, tem quase 30 horas de material editado e foi lançado em salas e DVD em 2010. Na quarentena de 2020, ficou disponível na TV Uzyna, o canal da companhia no YouTube.
Na televisão, o rastro é indireto. A minissérie “Desejo” (Globo, 1990), com Tarcísio Meira no papel de Euclides, tem Canudos como pano de fundo. Ela conta a vida do escritor e a chamada “Tragédia da Piedade”, sua morte em 1909, e não o livro. Já o cinema tratou do tema principalmente pela via histórica. “Guerra de Canudos” (1997), de Sérgio Rezende, é frequentemente associado ao livro, mas é um drama sobre a guerra, não uma adaptação da obra.
Fora das telas, “Os Sertões” ganhou versões em quadrinhos, como “Os Sertões: a luta”, de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa, que adapta a terceira parte. Também inspirou óperas e folhetos de cordel. Nessas versões, o livro costuma ser fatiado e reduzido, e “A Luta”, a parte sobre a guerra, é a mais aproveitada.
É nesse cenário que “Selvajaria” chama atenção. Em vez de condensar o livro, Gomes o desloca para o presente e para as pessoas que hoje vivem onde a guerra aconteceu. “Os Sertões” é, nas palavras do diretor, crucial para pensar a identidade brasileira, e o conflito entre sertanejos e soldados republicanos representa algo mais amplo sobre os humanos. Para Mariana Ferraz, da Matizar Filmes, filmar com quem vive ali é uma experiência especial, e a história “carrega questões universais”.
Se cumprir o que promete, o filme fará o que a literatura e o teatro fizeram de outras formas: ler Canudos de novo, agora com os herdeiros do arraial como parte da narrativa.