Por Reinaldo Glioche
É difícil subestimar a importância de discutir a influência das redes sociais em nosso tempo. Elas transformaram a maneira como nos relacionamos coletivamente e com nós mesmos, alteraram a circulação de informações e passaram a interferir na formação de opiniões, na política e até na percepção da realidade. É nesse contexto que “O Outro Lado das Redes”, escrito e dirigido por Aaron Sorkin, se apresenta como uma espécie de sequência espiritual de “A Rede Social” (2010), filme que ele roteirizou e que David Fincher dirigiu. Um dos títulos mais importantes do século 21, “A Rede Social” se notabilizou pelo caráter profético de antever como a criação de Mark Zuckerberg ajudaria a arquitetar uma nova ordem social e midiática.
Se o longa de Fincher se baseava no livro “Bilionários por Acaso”, de Ben Mezrich, a nova produção parte de outra história real: a denúncia de Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook que, em 2021, tornou públicos documentos internos da empresa. O material embasou uma série de reportagens do The Wall Street Journal, conhecida como Facebook Files, e alimentou depoimentos e discussões sobre a responsabilidade das plataformas digitais. As revelações expuseram, entre outros problemas, evidências de que a companhia conhecia possíveis efeitos nocivos de seus produtos sobre adolescentes e dificuldades para conter a desinformação e conteúdos capazes de acirrar a polarização. Naquele mesmo ano, o Facebook passou a se chamar Meta.

“O Outro Lado das Redes” não tem o impacto nem a ressonância de seu antecessor. A comparação é inevitável, mas talvez injusta: o filme de 2010 ganhou força com o passar dos anos, à medida que suas intuições sobre o poder das redes se confirmaram. O novo longa chega quando boa parte de suas denúncias já integra o debate público. Ainda assim, isoladamente, funciona bastante bem como thriller: é ágil, dinâmico e sustentado por boas atuações. Sua relevância também lhe confere certa indulgência do espectador. O filme sabe que trata de um assunto importante e, por vezes, parece contar com essa importância como uma espécie de salvo-conduto.
O roteiro de Sorkin tem os cacoetes habituais de sua escrita. A verborragia, uma de suas marcas, frequentemente produz diálogos de grande inteligência e energia. Em outros momentos, o texto se demora em detalhes que pouco acrescentam ao desenvolvimento dramático, como se o roteirista precisasse reafirmar a própria genialidade. Há, contudo, passagens de notável perspicácia, sobretudo quando o filme observa Mark Zuckerberg, interpretado por Jeremy Strong, como alguém completamente absorvido pela própria criação e pela lógica capitalista de fazê-la crescer a qualquer custo.
Uma das cenas mais eloquentes ocorre durante a preparação de Zuckerberg para depor no Congresso americano. Enquanto recebe orientações de media training, ele precisa lidar com a possibilidade de suspender ou não a conta de Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, em meio à disseminação de mensagens que contribuíram para mobilizar apoiadores na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. A cena sintetiza o dilema de uma plataforma que se apresenta como espaço de conexão e livre expressão, mas precisa decidir até que ponto seus interesses comerciais podem se sobrepor às consequências políticas de seu funcionamento.

O filme alterna essa linha temporal com o processo que leva Frances a procurar o jornalista Jeff Horwitz, vivido por Jeremy Allen White. A princípio, ela quer apenas chamar a atenção para o que considera uma deterioração dos princípios que orientaram a empresa. Frances acredita na democratização do acesso à informação e nas possibilidades de conexão oferecidas pelo Facebook. É justamente por ter acreditado nessas promessas que se sente constrangida com os rumos da companhia. O descaso de seus superiores por essa realidade lhe enseja uma certeza com a qual se debate: é preciso tornar públicas as informações que conhece.
O dilema moral da personagem é um dos pontos fortes do longa. Mikey Madison, vencedora do Oscar por “Anora”, confere precisão e energia a uma mulher que nem sempre domina os códigos sociais, mas é mais inteligente do que aparenta e mais corajosa do que ela própria imagina. Sua interpretação evita transformar Frances em uma heroína convencional. Há hesitação, desconforto e uma dificuldade genuína de compreender a dimensão do gesto que está prestes a realizar. Madison escolheu “O Outro Lado das Redes” como seu primeiro projeto após o Oscar e reafirma aqui a percepção de que é uma grande atriz, com potencial para se tornar ainda maior por meio de escolhas instigantes.
O filme não traz propriamente novidades sobre o poder das big techs ou a algoritmização de nossas escolhas. Esses temas já são discutidos há anos, em boa medida graças ao próprio episódio que a produção dramatiza. Seu mérito está menos em apresentar revelações inéditas do que em recolocar o problema sob os holofotes. E há uma escolha particularmente pertinente nessa abordagem: valorizar o jornalismo profissional.
Elogio ao jornalismo
Ao acompanhar os bastidores da investigação do The Wall Street Journal, Sorkin não se limita a denunciar os efeitos nocivos das plataformas digitais. Também evidencia como a concentração de poder nas empresas de tecnologia fragiliza o jornalismo, altera a circulação de notícias e impõe novos obstáculos à apuração de informações de interesse público. A desinformação tornou-se um desafio para as empresas de comunicação, para a política e para a sociedade. Em um ambiente no qual as plataformas determinam cada vez mais o que vemos, lemos e compartilhamos, investigar seus mecanismos é uma forma de fiscalização democrática.
Sorkin recorre a referências ao cinema de outras épocas e a uma certa idealização da atividade jornalística. A lembrança de clássicos sobre repórteres que enfrentam estruturas de poder ajuda a conferir solenidade à narrativa. É um recurso cinematográfico legítimo, embora, por vezes, torne o filme excessivamente reverente em relação à profissão que retrata. O jornalismo aparece quase como uma instituição moral capaz de se contrapor à opacidade das grandes corporações. A idealização simplifica algumas contradições, mas também reafirma uma convicção que o longa considera essencial: sem apuração independente, documentos, fontes e investigação, o poder econômico tem muito mais facilidade para controlar a própria narrativa.

O problema é que “O Outro Lado das Redes” leva tão a sério a própria relevância que nem sempre consegue transformar suas ideias em cinema à altura delas. Sorkin é um roteirista brilhante, mas, como diretor, demonstra ser menos habilidoso. Sua encenação é quadrada, pouco inventiva visualmente, e depende em excesso da força dos diálogos e dos atores. O elenco segura os momentos de maior instabilidade e ajuda a dar ressonância a um filme que, em mãos mais inventivas, poderia ser mais incisivo.
“O Outro Lado das Redes” talvez seja menos um alerta do que um balanço de danos. “A Rede Social” imaginava as consequências de uma revolução tecnológica ainda em curso; o novo filme olha para um mundo em que parte dessas consequências já se tornou incontornável. Sua contribuição não está em nos contar algo que desconhecemos, mas em insistir que conhecer os problemas não significa resolvê-los. E, diante de plataformas que disputam a atenção, moldam comportamentos e interferem no debate público, a existência de um jornalismo disposto a investigar o que acontece por trás das telas continua sendo uma necessidade democrática.